quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Despojo


desfaço-me de alguns momentos
desta minha loucura
pincelada com falsas obsessões

reservo combustível para o voo
e me apego
ao que me abastece

resta um pequeno fio de sanidade
por onde às vezes escorrego
(mas não por vontade própria)

carrego um tanto de palavras
imagens
sentidos
significados
até que o tempo os apague
ou deturpe

sigo

(Celso Mendes)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Por que tudo que é eterno tem fim?


o piar de passarinhos
rompe a manhã que não queria nascer

preparo a defesa

aquieto-me e me resigno
em abandonar o refúgio da escuridão
em que permaneci nesta eternidade
com minha estrela e sua luz
fria e distante
onde nadavam meus sonhos

o dia nascerá muitas vezes em plutão?

não consegui voar até o limite
os fantasmas partem lentamente, fico só
eu e uma realidade que me arde na pele

(Celso Mendes)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Híbrido


esses dedos
não mais me tocam
mas ardem
— sequela de tempestade em ferida —
rasgam velhos sonhos podres
rasuram memórias torporosas

eram deles as unhas-navalha
que levaram pedaços meus
encravados

ainda restam-me
suas lascas cartilaginosas
mescladas
em minha carne
em meus ossos
em minha alma


ainda resto-me híbrido

(Celso Mendes)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ultima ratio


espreito o indefinido como quem morre outra vez
meus olhos carregam cinzas
seguem opacos, cansados
mas avistam a última barreira

um sussurro me confessa mistérios
demônios dançam libertos
tridentes na carne que sangra fustigam meus sonhos
que teimam existir

insisto
rasgo realidades com meu arpão de delírios
penetro o infinito como um bólido
abaixo do limiar, o desejo do verme me devora entranhas
mergulho-me

caminhos a escolher e um destino marcado
resta-me seguir e contar às estrelas

até a treva, seus derradeiros reflexos
haverão de me acompanhar

(Celso Mendes)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Motivo de escrever


a escuridão do branco
insólita
diz do pó da palavra
em nó desapertado de gravata
onde se encouraçam vozes
e se faz ré de si
a cantar silêncios retroativos
sobre imagens amordaçadas
em memórias olvidáveis

a escuridão do branco
macula chaga e sorriso
enxuga cores e cinzas
engole o passado
e clama por um inexistente futuro
a obscurecer olhares
com seu imenso nada

(Celso Mendes)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Entropia


falo num idioma que entende noites
e dialoga com estrelas

meu dizer não é meu, é do universo
pois não sou de mim ou de ninguém
fui gerado para romper fronteiras
e só agora me descobri

busco a magia escondida em cumes
e a essência do átomo

semeio e me desfaço lentamente

o risco na pele é um sinal
eu sinto
mudo a cada segundo

(Celso Mendes)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Espiando a poesia


por esta nesga de papel
escorrem sonhos
e as palavras brincam de voar

(Celso Mendes)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Tropeço


ao cair no abismo
seguro-me em flores que sangram
esta minha insanidade

(Celso Mendes)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Trajetos, trajes e fins


eu pensava saber do voo
aonde os passos me levavam
onde as ondas quebravam
por onde rios corriam
eu pensava saber da asa
                               [e do vento

mas só sei apontar

piso onde o solo se me oferece
e meu olhar é oceânico

visto-me com o que avisto
com o que sinto
com o ruído do grilo

o que me atinge reveste-me
impregna-me, adorna-me
compõe-se com
o que eu fui [até
                            então]
                e então
        após
serei

no fundo
continuo um recheio de sonhos
que me nutrem
e que me matam
a cada dia

(Celso Mendes)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Vou contar uma coisa

Não escrevo poemas, somatizo sentimentos
e aqui, bem aqui os guardo...
Os que me escapam, contam meus segredos.

(Celso Mendes)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Voo


não subestimes a brisa e a palavra
elas podem atravessar oceanos
e te levarem junto

(Celso Mendes)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Anoitecido


meus pés desejam pisar silêncios
de um alvorecer grisalho e calmo

não é pretensão, é despojo
despir-me das escamas de um tempo
atingir nuvens em dois saltos
sorver mares profundos
despetalar um poema e aspirar sua essência

mas desconheço e desmereço o segredo do sol
permaneço em penumbra

de manhã lírios brincarão na brisa

até quando aquela estrela me consolará?

(Celso Mendes)

sábado, 27 de novembro de 2010

Úmido


água de palavra esquecida no coração
lacrimada da mente
presa nos olhos
refletida em madeira mofada
endurada na pedra
vertida em sangue e seiva
tragada do mundo
(bebedouro vitalício do bem e do mal)

hoje decidi silenciar corredeiras
e mimar dois pingos na palma da mão

é triste ver a água chorar

(Celso Mendes)

Observatório


leve-branda
brinca-brisa
verde-calma
viva-folha

lenta-lagarta-veste-cores
dança-asas-voo

longe-branco
pássaro-nuvem
vibrato-vertigem-viagem

passa-passos-passo
guardo-tempo-aguardo
e-aqui-fico-a-ficar

(Celso Mendes)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cicatrização


apagar teus ruídos
doídos, vermelhos
silenciar
num mergulho
mortal
sem olhares
grito mudo
num peito
rasgado
vazando
e este
sopro
de vida
querendo
voltar
afinal

(Celso Mendes)

domingo, 14 de novembro de 2010

Escolhas

a rasgar pétalas
apanhadas do vento
giro, giro
entonteço, entorpeço
mas toda lágrima tem um preço
e sal

rimas, nem as busco
tenho andado um tanto dispersivo
talvez pelo pólen que me brilha nos olhos
por isso me agarro a grãos de areia

não é o vinho
nem sua mancha

fantasmas habitam em árvores
e nas paredes mora um passado
percorro olhares como a um instante
mas instantes não existem mais

pássaros, sim os pássaros

então me distraio com livros e formigas
há dois contos e um menino perdido na página trinta e um

nuvens, sempre as nuvens

eu calo por não saber gritar
mas minha arma está carregada de palavras
agora entendo aqueles trens
que percorrem trilhos de cristal
e sempre partem

ingresso nessa frágil viagem

caminhos
quantas vezes precisei deles

(Celso Mendes)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Flores de Tempestade


teu olhar se perde de mim

atrás das retinas
o segredo
de uma chuva intensa
pinga em flores mortas
que juntos plantamos
molha meu desejo
rega-me a saudade
e escorre
meio ao limbo
indecifrável
de mulher
onde
em meus sonhos mais rubros
tento
ma(i)s não adentro
jamais

(Celso Mendes)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Motivo

rabisco letras sobre um vazio

insisto

eu nem queria dizer da simplicidade da areia
ou da complexidade da semente

queria somente ousar
algumas palavras
aprisionadas
e seguir
em paz

(Celso Mendes)

sábado, 6 de novembro de 2010

Descobertas


por trás das montanhas verdes
o segredo das flores
dos prédios espelhados
história de casarões
dos pontilhões e estradas
a areia da praia
da água brilhante
o Sol
da concha do caramujo
tesouros
do caminho das nuvens
este corredor
da música
o sorriso
dos olhos
o desejo
da pele
o fogo

(atrás do gelo)

CELSO MENDES

Ruptura


olhares disformes
em cenas sem cor
desenham futuros do pretérito
e presentes incongruentes

uma esperança de pedra
um caminho, nenhum rumo
o rastro
delírios permanentes

no fio da faca, a pele e o corte
da luz na retina, só sombra
do pacto, o impacto
de reviver
esta velha
e solitária
comunhão

(Celso Mendes)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poema Abissal


gutural
este grito
aprisionado
lançado
entre o azul-perdido
que persigo
e o negro-nada
que me cala
enquanto a palavra
imersa
fria
aguarda o voo
mas se faz mergulho

(Celso Mendes)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobre folhas e um gato amarelo


Resolvo andar em volta do quarteirão onde sempre vivi. Saio e respingam dois segundos de um cheiro de liberdade. Abaixo-me para amarrar os sapatos e a boca amarga recorda o doce por um breve momento. Entardece e o vento gelado brinca de queimar faces. Reviso a calçada esperando luzes acenderem de postes calados enquanto pardais piam alvoroçados no seu recolher. O gato amarelo de listras negras continua dominando seu território e ainda pensa ser leão. Os cães ladram, mas estão presos. E o outono vai derrubando mais folhas das árvores, que esperam, tristes, um inverno tão próximo. Eu sei que a velha esquina me observa, mas continuo a caminhar, disfarçando aquela apreensão de que o tempo insiste em querer me matar. É que às vezes me esqueço que já descobri que o tempo é uma farsa, ele não existe, que eu apenas sou. Mas não conto nada para as árvores. Volto pra casa.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ensaio para um voo cego


Estanca esta minha reza antes que eu confesse
meus dissimulados tempos de angústia incrustada,
forjada secretamente com palavras mudas entre risos breves,
olhares distantes e meias verdades.

O amargo que exalo da língua é a minha defesa
e a lança que aponto em teu peito me fere na alma.

Não deixa que eu diga o que sinto,
que eu sinta o que penso,
que eu pense que sei já saber ser vodu de mim mesmo.

Pois hoje eu queria fazer um poema cortante,
que sangre, que vaze dos olhos, que verta o veneno.
Por isso preparo um altar para o sacrifício:
que o doce lirismo se queime na verve maldita
e o olho dos ventos me arranque essa pele de santo.

Devolva-me cada delírio e meus sonhos alados,
vomita esses meus pedaços que já mastigaste,
retira de minhas entranhas as tuas matizes

e impeça este meu ensaio de um vôo ao inferno.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Caminho de Sal


Resvalo nos segredos do mar
e me salgo de azul.

Nos olhos,
a espera das ondas.

Nos pés,
a areia do tempo.

E mãos
nadando
em água-vida
na eterna busca
do não-sei-que.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Procura


Já conversei com os deuses
Já repousei vários colos
Escorreguei entre ventres
Bebi do frescor da infância
Ouvi conversa de insetos
Mergulhei infernos
Descansei escuridões
Nadei olhares
Percorri sorrisos
Provei um pouco do céu
Tomei do vinho maldito
Pulei abismos e bocas
Enquanto não me atordoava o giro do mundo

Lunático
Agora persigo o fogo
O gelo
Uma luz distante e desfocada
No rastro das bruxas um brilho de fada
O vento
O centro
E uma improvável paz

(Celso Mendes)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre Saudade

SAUDADE - 1

se neste escuro
certa fada rubra
voltasse a brincar de Lua
talvez as noites tivessem
novamente
Sol


SAUDADE - 2

distância é frio
palavra não transmitida, angústia
quando olhos se calam, dói...


SAUDADE - 3


hoje eu quero beber o negro da noite
embebedar-me de estrelas
e silenciar o universo


(Celso Mendes)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Belicoso


em meus dias de aurora de rapina
belicoso
eu roubava raios boreais
e os colocava em meu saco de estrelas
junto às bandeirolas iluminadas
fluorescentes
que apanhava lá no cantinho
do escuro de meu quarto
em minhas madrugadas secretas
antes
bem antes
de se tornarem opacas

(Celso Mendes)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Arreflexia


uma imagem sem luz
adentra-me as pupilas

fotomomento

há um frio circunstancial
a roer-me beiradas

lentifico
súbito, desacelero
o sangue adensa-me

vida-fado
fauno sem flora
face sem linfa
lágrima sem pálpebra
e um abstinente sorriso

onde foi que deixei meu reflexo
que habitava teus olhos?

(Celso Mendes)

domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre Romper Barreiras


Eu lanço esta palavra em voo cego
Rasgando este segredo que me envolve.
Que o eco que o silêncio me devolve
Respingue a liberdade a que me nego.

E risco o ar com cores e sabores,
Arrisco conturbar a minha calma.
Bem sei não ter a vida em minha palma,
Mas tenho minhas flores e valores.

Pressinto o que me espera ao fim da reta
E agora eu quero abrir esta comporta,
Saber daquele brilho que me afeta.

Eu rompo a solidão que me conforta,
Desato o nó e então atiro a seta:
Quem sabe o seu trajeto me transporta...

(Celso Mendes)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Do que fala um vazio


das palavras não ditas
o ruído
a repetir
insistente
reverbera
a ausência

o som do silêncio
cria a imagem

e o que não se escreveu
a mensagem

(Celso Mendes)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Lua resplandecerá plena nos olhos vagos


Imóvel,
no mesmo banco de praça,
sonha antigas musas.

O velho poeta aguarda a noite.

Seus olhos cansados padecem
do mais pleno vazio. Mas espera,
mais uma vez.

Ele bem sabe,
não há clichê no amor, na lua, nas estrelas;
apenas sonhos coletivos
desses eternos lenitivos
da alma.

(Celso Mendes)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Flores de Asfalto



perseguir flores no asfalto
para regá-las
minha busca

mas o calor do sol
no solo negro
turva o ar
e arde

desatino

logo eu que
no gelo desta prisão
tenho mãos queimadas
olhos pétreos
e foco único
paralítico
de um compulsivo rumo

sim
minhas asas já foram brancas
mas o voo jamais foi livre

agora
quero apenas
rasgar a poeira que turva horizontes
lavar esta água impura que me inunda
fugir de mim
esperar o novo
e partir
no próximo vento estelar

(Celso Mendes)

sábado, 11 de setembro de 2010

Evisceração

Espere pela volta das borboletas na poeira do tempo
Espere por aquele olhar a se projetar entre estilhaços de angústia
Espere pela nuvem de gafanhotos-devoradores-de-horizonte
Mas não vá, fique um pouco mais, ainda há muito o que esperar
E não me deixe plantado neste inferno cor-de-rosa sem um porquê

Eu bem que queria lhe dizer que a lágrima não se mostra
Por puro orgulho
Eu bem queria lhe mostrar
Esta jugular que pulsa no aguardo de uma nova mordida
O que se esconde neste brilho que já não há
E revelar onde a lua se ocultou e dormem as estrelas

Fique um pouco mais
Só um pouco mais
Sinta o som do mar
Sinta o som
O som do mar
E o som
Do Sol
E o Sol
No mar
Fique um pouco mais

Queime comigo nossas verdades douradas e as mentiras azuis
Não minta mais para o azul
Ou para o vermelho
Espalhe algumas verdades transparentes sobre a mesa
Diga para mim desta ferida
Daquela esperança forjada em frases insolúveis
Do impossível e do improvável que já vivemos
Que eu prometo
Que eu lhe juro
Pela divina providência dos semideuses
Estancar este corte que vaza minhas vísceras
E partir

(Celso Mendes)

Ritual

um punhal
de prata
aponta
no peito

ponta fria
na pele

um prenúncio
desponta
em sangue

vida
pontual

oferenda
pactual

ponto final

(Celso Mendes)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Setembro

Setembro começa-me vago. Por ser um cultuador de palavras simples e frases de raso significado, não compreendo bem o porquê. Mas sinto. Enquanto lavo meus olhos na poeira, aguardo a chuva que leve as folhas secas de agosto. Aprendi que retas perfeitas não existem, mas não consigo evitar a curiosidade de saber onde estão os pontos à frente. Isso machuca, sei bem, como sei também ser impossível evitar a dor.

Este inverno me roubou o vermelho e com ele fugiu o arco-íris das tempestades de verão; perdi mais uma flor. O pó é a cor que tem me pintado. Até as maritacas que me acordavam toda manhã andam ausentes. Agora volta a promessa de primavera. Não sei se acredito mais em primavera. Talvez devesse...

Mas um setembro já me deu o que mais amo e outros também me trouxeram presentes. Sempre esperarei algo de setembro. Quem sabe este me umedeça novamente. Mantenho a água na memória. Meus olhos cansados permanecem abertos, continuo amanhecendo e não perdi essa mania de sonhar. Acho que ainda acredito em primaveras.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Caldo

lenta
é assim que me escoa
esta abstinência
doída
liquefeita no tempo
densa
hipertônica
salgada com frases perdidas
repleta de olhares nus
de boca
saliva
e pele

(Celso Mendes)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sopros, sonhos e areia

Suas mãos descamam camadas de lembranças
Seus olhos não secam
O brilho do não é infinito
Mas nada acabará pra você

Console-se pelo já perdido
Esquecer não faz parte do jogo

Também não queira saber além de seu tempo
Tente, apenas continue

Uma boca no deserto
Três dias para compreender
E uma vida para esquecer

Não tem sentido?
Então experimente não saciar a sua sede

Todo segredo é segredo
Todo presente é uma revelação
Toda verdade é relativa

Cada pele tocada, uma textura
Cada carne que morda, um sabor

Sinta, saboreie, guarde
Hipocampo e papilas gustativas existem para isso mesmo

Remeta ao vazio vez ou outra
Mas não fique muito tempo sem mim

Ah, eu sempre achei que a vida começa aos cinco
Lembra?
Estava errado

Continue contando as luas, as balas, os sorrisos
Mas saiba que é bobagem memorizar a contagem

Volte a pisar apenas nas pedras claras
Para não queimar os pés nas escuras
É divertido

Salte nuvens novamente
Se cair, já sabe o que é um ralado
E que a dor é preciso, é fundamental

Acho que devíamos caminhar um pouco
Quem sabe encontremos a praia outra vez

(Celso Mendes)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sazonal


(invernos jamais se repetem...)

por que este agosto
deixa esse gosto
assim
de mate amargo
de riso pálido e olhares mudos
de corte fundo com sangue doce
de boca seca
de folha ao vento
de pó nos olhos
de vida esporulada
e de um tempo desnudo
se é no seu fogo
se é no seu ocre
em suas horas áridas
que se queimam as palhas?

(Celso Mendes)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Esconderijo


neste agora
em que as asas me pesam
o rastro se perde
o chão me abandona
dispo-me das cores
e me acomodo na solidão

deste escuro que busco
queria uma calma
que não me alcança

desta luz que renego
permanecem sombras
que não consigo apagar

em minha mudez
guardo o silêncio do mundo

fecho os olhos
junto cinzas
refaço-me lentamente

um dia volto

(Celso Mendes)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Velho Casarão

todos os sentidos
aquietam-se neste canto
enquanto sombras se escondem
do silêncio

o passado impregnado nas paredes me espia

por um breve instante
transpassa-me
o úmido aroma
de uma vida
que já me pertenceu

(Celso Mendes)

Instante

não sei
se sei
versar assim
tão simples

estar aqui
estando
apenas
ficar assim
tão simples

então
não pensem
ser isto um poema
assim
tão simples

isto somente
é um momento
e é assim
tão simples sim

(Celso Mendes)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Absintismo

fluida
escorreu-me lenta
banhou-me de olhares
palavras
desejos

bebi da sua cor
sorvi sua essência
naveguei cada vão
por onde vertia
e nadava-a
sôfrego
ao perceber
súbito
destilar-se me pele afora
enquanto vazava
de minhas mãos
ocas
que não mais a continha

rapidamente escoou
secando-me um sonho
eternamente fugaz

daqui
em minha embriaguez
ainda absinto-a
intensa
inebriante
fluida

(Celso Mendes)

(Des)Encantamento

Em pleno voo
Inesperada
Rápida
Certeira
Seca
Precisa
Corta-lhe as asas

Ferido
Cai

Sangrando
Perdido
Sem ninho
Desorientado
Atordoado

Cego
Dorido
Amua-se num canto

Espera a cicatriz

A sequela
Sabe
Inevitável

(Celso Mendes)

domingo, 25 de julho de 2010

Pensamentos Tangentes & Inconsistências Afins

eis-me aqui a velar
nu e desprotegido
pela minha consciência
amortecida
amortizada
estigmatizada
enquanto mastigo deste meu veneno

raízes adormecem meus sonhos

cá estou, cá permaneço
em mim imerso
tal um ser ácrono
anacrônico
esquizóide
acronizóico
que vez ou outra
regurgita idéias fugazes
ou sentimentos perenes
em palavras-verso

e eis-me aqui
a velar
por este meu universo
pela minha inconsequência
pelos amores vividos
por esta doce imprudência
e pela jurisprudência
insana
do meu superego
que se me impõe
mas não me compõe

(Celso Mendes)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Itinerários

paisagens de luz
margeiam a escuridão
superam paradigmas
repelem o falso brilho dos satélites
mas são apenas mais uma opção

cada escolha é um novo abismo a explorar
(o choro do bebê é apenas um começo)

viajar até o limite
mergulhar o próprio interior
saber do espaço infinito
reconhecer o desconhecido
aprender do vazio e do nada
são coisas das quais não se pode fugir

sempre existe um caminho no final da estrada
e todo medo se perde
onde começa o fim

(Celso Mendes)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Revoada


Tua boca já não comove ou remove minha decepção.
Renovo sentimentos contra teu sorriso impassível, engessado,
incrustado em minhas fantasias mais rubras. Teus olhos
negros
teimam brilhar
em meus dias de insanidade
que se repetem pontualmente às treze horas
na porta do inferno.
Inda não acabou. Mas já rasgo o ar
com minha palavra mais secreta de emudecer pintassilgos.
Estou abandonando o meu refúgio. Recrudesça-te
a tua condição do nada que já foste, pois eu irei,
novamente,
à procura do azul.

(Celso Mendes)

Fronteiras

"Entre mim e a vida há
uma ponte partida...”
(Fernando Pessoa)


Tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo

Projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas

Nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário

Eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:

do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou

(Celso Mendes)

Buraco Negro

um movimento
lento
e teus olhos desfocaram-se dos meus
no instante
em que este abismo
sugava-me

e a espera de luz
aqui
permaneço

(Celso Mendes)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Orbital

verto sorrisos inúteis
para cenas repetidas
entre ações previsíveis
e olhares vazios

percorro pretéritos insolúveis
recorrentes
insistentes
vermelhos
manchados de saudade

ainda não aprendi a simplicidade mecânica
da vida
em torno do Sol

(Celso Mendes)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Poema Sem Tema

Talvez eu fale aqui desta minha ansiedade ortomolecular
ou dos restos mortais
daquelas fotografias cravejadas de olhares
das abstinências que sobem por paredes escorregadias
e congelam resquícios de lucidez
ou, quem sabe, de simples amores de prateleira

Talvez resolva apenas pendurar duas gotas de sal neste cadarço
antes de amarrar minhas mãos e desatar a minha língua
aparar a grama enquanto rolam ilusões
redefinir conceitos inexistentes
realçar bocas pintadas de libido
resolver equações geométricas
ou pequenas questões de física quântica

Queria mesmo era escrever um poema sem tema
dizer das impurezas de verdades inconcebidas
desacreditar da necessidade pragmática da escrita
rimar palavras pobres com idéias ricas
deslizar alguns símbolos gráficos sobre o branco
manchando-o com frivolidades incontestáveis
rifar pensamentos inúteis
e apenas
fluir

(Celso Mendes)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um cruzamento


frio
noite
passos pesam
passado

memórias
a trazer
teu rosto
que insiste existir

chuva
semiluz
vento

no cruzamento
faróis rasgando pingos oblíquos
denunciam meu olhar
marejado

sombras
vagueiam
disfarçadas de gente

comigo
só lembranças

solidão
dobrando esquina
devagar

da alma
deixo um pedaço

o que as retinas fixaram na mente

levo

(Celso Mendes)

sábado, 12 de junho de 2010

Combustível


Quando a seta partiu
seu zunir abafou o grito,
que lacrado engoli.

Mas a pele viu o limbo
que tua face oferecia,
sub-reptícia,
com olhos de auscultar o meu vermelho
em seu pulsar
frenético.

Profundos são os passos
que me livram das imagens
previsíveis
de minha sanidade,
enquanto tuas centelhas
penetram-me os poros.

Não cedo à realidade que me fustiga,
não me dissecam os ventos longínquos da razão;
permito-me a embriaguez controlada por desejos
e me deixo invadir.

(Celso Mendes)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Avoando inutilidades pseudo-factuais


Enquanto formigas labutam em linha reta, penso torto: zunem as asas da abelha ou seria o ar a festejar mais um voo? Não gosto de atritos, prefiro a sabedoria das curvas, que sempre me possibilitam ver as coisas por um ângulo diferente.

Entretanto existem algumas certezas quase retilíneas...

Toda luz que atravessa frestas rasga sombras. Nem toda luz que conheço é sol, mas toda vida sim (a que conheço). E nem todo o escuro conhece o sol. Essas pertinências por vezes me incomodam. Melhor mudar de rumo.

Um pardal pia e pisca suas penas rindo de mim. Ele pensa que eu não sei de nada. Mal sabe que aprendi que pedras se fingem de surdas e podem ser disfarces de estátuas ou deuses. Outros pardais pousam próximo e me olham com o mesmo desprezo. Talvez tenham razão. Só sei o que penso saber e minhas verdades não são mais verdadeiras do que as deles; muito menos minha sapiência. E só sei voar de mentirinha. Mas é tão gostoso...


(Celso Mendes)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Palco

paredes azuis
duas cadeiras negras
pensamentos vermelhos
angústia sem cor
um silêncio único

a densidade do ambiente
penetra
a porosidade da mente

fachos fluorescentes fabricam sombras solitárias
pingos de lucidez prenunciam o inverno
as persianas são brancas
o piso palha
lá fora frio

(Celso Mendes)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Inútil Procura

Andei procurando pelos quatro cantos
Embaixo do travesseiro
Acima da via láctea
Na luz que soprava em mim
No ramo deste alecrim

Eu andei girando como cata-vento
Como gira-mundo
Em cada esquina calada
Na densidade do nada
Onde o raso é o mais profundo

Andei até navegando
Em ventos, poeira e fumaça
Nos sete mares, silêncio
Em toda lua, a estrada

Atiro-me neste mistério
Persigo a minha morada
Da chama pretendo a calma
Do espelho, a minha alma

(Celso Mendes)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um Poema?

O nexo
É o foco disléxico
Deste poema sem sexo
Sem juras de amor
Sem pudor
Atordoado
Indisciplinado
Inclinado
A nada dizer

Por que fazer disso um problema?

Deixo que o próprio poema
Fale de seu dilema

De ser
Ou não ser

(Celso Mendes)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

RUPTURA

Palavras engasgadas
Pretéritos inexistentes
Particípios ausentes
Presentes vencidos
Prólogos inativos
Preâmbulos fechados
Profecias rasgadas
Projetos carcomidos
Pífias histórias
Pedaços fragmentados
Pranto
Pausa
Partida

(Celso Mendes)

Pânico



Sempre o medo e a angústia, a falta de cor selando seu semblante desbotado de vida e a música do silêncio a pesar sobre seus ombros. O ritmo acelerado de um coração mecânico, autômato, que nem mais lhe pertence, bate forte e descontrolado como a querer saltar de seu corpo, o mesmo corpo que flutua, límbico, na eletricidade de sonhos psicossomáticos; os mesmos sonhos focados na direção imagética de seu olhar estático.

Percorrer caminhos arteriais só leva a retornos venosos, escuros, tortuosos e sem oxigênio. Alma sufocada, seus olhos, por alguns segundos, arriscam explorar um vazio cercado de coisas sem razão ou sentido. Plantas artificiais enfeitam o dia fabricado por encomenda enquanto cãezinhos latem até acabarem suas baterias.

Estabelece-se um contato com o centro do nada. Segue brincando com lágrimas presas, que brilham, mas distorcem sua visão, e tenta, assim, esquecer que o sangue inunda lentamente seu mediastino prestes a transbordar ansiedade ou implodir sua tristeza. Já tem consigo uma certeza: não há anatomia que resista a mais um dia tonificado de pânico. E a noite chega.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Desorientação

já entendi meu pedaço iluminado por estrelas
alguma coisa sobre as fases da lua
e o trajeto do sol

mas me esqueci de marcar os caminhos
não aprendi o voltar

eu desconheço o espaço deste agora

e as setas
sempre apontando para meu peito
arrastam-me para um escuro
aonde ainda não sei
ainda não sou
apenas
estou

(Celso Mendes)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sincronicidade

cada espelho que atravesso
me lembra
em cada dia que anoiteço
que todo sol que ouso acender
e todo gesto que tento calar
não são mais só meus

(Celso Mendes)

Uma Antiparábola

rabisco uma parábola distorcida
de brilho duvidoso
e preceitos ilusórios
onde a razão não tem forma

da lógica estilhaçada
tenho alguns cacos
mas não se encaixam

discernimentos se confundem
nos ecos da escuridão
onde navego e me escondo

nesta incoerência que me domina
restam poucas simetrias
apenas sonhos doentes
que não se refletem
mas se repetem
repetem
repetem
repetem

(Celso Mendes)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Involuntário

Pingam-me palavras.

E nem há motivo,
além da chuva
que escorre
na mesma janela
por onde a luz
abandona a tarde.

Um lamento
transcende o tempo
num canto
secreto
de letras
empoçadas.

Loucura
despejada em vão
no vão que sobra
aos lábios soprar

enquanto
desejos,
sabores,
sensações
dissipam-se
lentamente
como gemidos
de uma noite.

Por fim,
o silêncio
mesclado
de saudade
e destas palavras
caindo
torturantes

dominam meu vazio.


(Celso Mendes)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Abjuração

abjuro desta santa que me despe
destas tardes de loucura
desta mão que me esconjura
destes infernos tangentes

abjuro das ilusões carcomidas
das aflições recorrentes
das correntes, das acácias
dos olores multicores

abjuro amores inconsequentes
sonhos permanentes, soluções pertinentes

abjuro, enfim, do azul de todas as fadas
do vermelho destes meus demônios
dos venenos que destilo
e desta estúpida lucidez que me entorpece

(Celso Mendes)

domingo, 2 de maio de 2010

Invasiva

lento, hoje estou lento
como a saudade que me toma devagar
preguiçosa
vestida de um vermelho que me inunda
preenche-me de olhares
de sorrisos nus
de pele macia
e de uma falta danada desse seu abraço

(Celso Mendes)

sábado, 1 de maio de 2010

Desertos

Tento, mas não sei falar de paisagens. Minhas palavras são uma provocação aos grandes segredos do viver e meus desertos são imensos...


brancas
salinas
salgam
imensidões
solitárias
onde liberto
uma alma
que persegue
vida
tal água
em verdes
lençóis
bebendo
sol.

viajo só,
desato o nó,
carrego comigo
o sopro
do nada
e voo entre os silêncios
de uma procura.

a paz que me basta
não é geografia,
é história,
é passado e presente,
uma busca,
o encontro,
equilíbrio.

atiro-me
sobre
a areia e o gelo,
sob
as nevascas e as ventanias
e entre os arbustos
do deserto
de Taklamakan,
onde,
neste momento,
faço minha morada.

(Celso Mendes)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Epífora

Uma agulha atravessando a pele
Sorrisos costurados
Alegria lacrada na memória
Percepção rasgada, picada em pedaços
Partilha de angústias brancas
Pretéritos presentes nada perfeitos
A prisão perpétua no hipocampo
O grito

Ferroadas agendadas sistematicamente
Auto-inoculações precisas
O lento destilar da peçonha
Lucidez embargada de fel
Dias que arrastam correntes
Paredes atravessando olhos
O brilho triste da esperança vermelha
Solidão recorrente na multidão sem face
O que não quer ser choro
Epífora

A mesma velha sensação disfarçando-se por semitons
O ponteiro que insiste registrar horas de ansiedade
A esperança da manhã que foge por campos floridos
E a rotina vespertina anoitecendo mais uma vez
Mudez

(Celso Mendes)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Poemeto Esquálido


linhas do horizonte
sucessivas e inúteis
desabam a todo instante
enquanto permaneço obtuso
rasgando a beleza da tarde
com este meu olhar estático
irredutivelmente espástico
indubitavelmente esquálido
borrado de sonhos vencidos
riscado de palavras rubras
e pele manchada de tempo
a ouvir a conversa das pedras.

(Celso Mendes)

sábado, 10 de abril de 2010

Sobre raízes e uma luz


Pessoas sem face se repetem
em casas sem cores
e ruas sem caminhos
onde procuro esperança
numa saída secreta.

E sempre a velha sensação
de que o vento tenta me engolir
e a mesma fenda insiste em se abrir sob meus pés.

Alço voo,
mas aqueles dias,
que já não mais existem,
sugam-me.

Raízes rasgam
paredes
a prender-me as asas
em muros fincados no passado.

Outra vez
meu olhar
mira a estrela,
bela,
que diz me esperar.

Ando perseguindo uma luz que não me cabe;
ela pertence aos meus sonhos.

(Celso Mendes)

sábado, 3 de abril de 2010

Rumo

À espreita do inverno,
eu conservo cores
desses olhares
como relicário.
Mesmo à porta do inferno
perseguem-me
aromas.

Não seguirei sem minhas garras
que já não arranham,
mas são minhas.
O caminhar em folhas secas
de outono
não existe. Meus passos
são os de sempre, sobre um chão
escorregadio, sabedor
de minhas fragilidades.

Em meu rastro,
veneno
e flores.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sobre Leveza e Inutilidades

Eu ando a caça de palavras aladas
que possam compor versos planadores
e recheados de desimportância.

Palavras-borboleta, conhecedoras
do voo e da metamorfose, donas
de seu destino. Não desejo aprisionar
significâncias.

Se for à noite, que sejam palavras vaga-lumes
ou de estrelas falantes. Estou cansado de opacidades,
de seriedades,
do inútil marrom que não sabe sorrir.

Feliz eu ficaria se delas nascesse
um poema com a mesma inutilidade
dos aviõezinhos de papel,
tantas vezes atirados ao vento
bem de lá da minha infância...

(Celso Mendes)

Tardes

Limbo

antes do começo
antes da ansiedade
antes do vermelho gritando nos olhos
o nada

antes do improvável
o sonho
antes da noite de chuva
o escuro e a espera
antes da meta
um abismo a saltar
antes do antes
somente eu

agora
apenas
o aguardo do novo após

somente nós

(Celso Mendes)

Fugazes


escrevo mentiras verde esmeralda
sobre verdades ocultas.
escrevo do falso brilho de estrelas cadentes
rochas riscadas nos olhos 
que passam
fugazes
vorazes
sedentas
de fogo
de cinzas
e pó.

 (Celso Mendes)

Caminhante

percorro a densidade do universo.
fluo matéria e vácuo
a cortar a escuridão
vestido de silêncio
e sombra.

os passos me pesam anos,
mas são cada vez mais velozes.

levo,
oculta,
esta luz
que arde
e pulsa
prestes a explodir
meu ventrículo esquerdo.

(Celso Mendes)

Sede

querer o risco na pele
o doce flutuando na boca
o tremor do corpo nas nuvens
as asas

e mergulhar nos sentidos
sem prévias verdades
descobrindo
no toque
os segredos

viajar levando rios e mares
luas, florestas,
cometas
ou simplesmente oceano

mas nem desejo o universo

bastavam lagos
brilhantes
como teus olhos escuros
onde eu queria nadar

(Celso Mendes)

Sinais

Entre o tridente e a cruz
os sinais
de um vento que é momento
mas instiga
da fala da rocha lambida pelo tempo
que emudece desejos
do respirar das árvores
arfantes
e da flor
rubra
que me cega
com olhos negros
e um sorriso branco.

Levito lembranças.

Fios de cabelo
invadem-me as retinas
com um cheiro suave de pecado.

Neste agora
sou só passado.

(Celso Mendes)

A Busca

Persigo fantasmas fugidios
em noites tépidas
feito diamantes
incrustados na escuridão.
E cada estrela
tenta me explicar
o porquê do brilho
e o motivo do silêncio
a banhar galáxias.

Mas já aprendi
que a mudez vem da alma,
de cada canto
que espero escutar,
de cada sombra
que quero seguir,
de cada encanto
que tento viver.

Persigo fantasmas fugidios
em noites tépidas
que são só minhas.

(Celso Mendes)

Catexia

Lembranças entoam
vazios
em um silêncio gritante
latejante
cadenciados
de um torpor
inebriante.

Agora sorriso é memória
delírio
deslize de uma trajetória
que não viu
o aviso no poste
contra minha cara
encharcada de linfa
destoada
desbotada.

À minha frente
a árvore
conformada
sorri
para o machado
manchado de seiva

mas eu tento:
debulho de mim
cada fragmento de ti
enquanto as horas consomem
minha sanidade.

(Celso Mendes)

Toque de Lembrança

o sussurro do teu silêncio me aflige

eu creio na verdade da brisa
pois não domino
a pureza da luz
ou a franqueza do escuro

a pele é testemunha da chuva
e cada lágrima da lua emociona

(Celso Mendes)

Uma Tentativa

Por que eu faria agora uma poesia?
Por que do escuro meu fruto maduro?

Escalo a magia da noite
opaco como fora um nada.
Encontro nesta madrugada
dez vidas, três horas insanas,
mil vozes em rogos de paz,
cem dardos cravados no peito.

Exploro os mistérios do vácuo
vazio como esta verdade,
cortante como esta saudade,
gritando um silêncio voraz.

E se agora eu verto este meu verde em vão
é somente por que
enrubesce-me o azul.

Mas não é sangue, é vida estanque
vermelha como meus olhos,
como meus sonhos,
como o fogo de uma espera.
Como este fado
e como este fato, que me impele ao ir.

Assim, e então, resta-me flutuar
na exata dimensão onde fadas dormem
para ver se encontro
minha fantasia.

Por que faria agora uma poesia?

(Celso Mendes)

Eternidade

o dia é hoje
passaram-se anos
mas o momento é agora

passado é rastro
perceba minhas mãos
migrando
para o seu rosto
mais uma vez

esqueça o futuro
o momento é esse
e é mágico
perceba meus olhos
migrando para os seus
mais uma vez

os pontos são os mesmos
mas não se repetem
os sorrisos são eternos
o choro mais triste
o novo não existe

estou aqui
e o momento é agora
perceba meus passos
entrelaçados aos seus

então
abrace-me
e vamos juntos

(Celso Mendes)

Eterno

Flutuo no rubro do tempo
Deslizo por ondas de luz
Navego teu corpo em tormenta
E guardo este fogo na pele

Congelo meu voo em teu colo
Seguro os ponteiros nas mãos
O toque em teus lábios, eterno
Meu corpo e teu corpo se bastam

Não rasga este meu momento
Não deixa quebrar este encanto
Não sangra meus olhos, meu bem
Não deixa este tempo escoar

Não corre levando os meus sonhos

(Celso Mendes)

Viagens


cinco pedras
em três pedaços
de chão,
vinte flores
amarelas
carregando saudade,
uma espera
em dois palmos
de luz.

vaga-lumes em círculos
e os anúncios em neon
na mesma nuvem cinza
de sempre.
infinitos caminhos
e a maldição da escolha
pairando à frente
de olhos esbugalhados.

subir em árvores
sentar em muros
não são coisas simples assim

ser passarinho
nadar no abissal
é que me levam sempre daqui.

mas o refúgio, teus olhos.
onde descanso, teu colo.

e é pra lá que retorno.

(Celso Mendes)

Chuva de Verão

Chuva riscada
Num som
Bate-telha
Pingando
Lembranças
Regando
Memórias

Chuva cantada
Num tom
De verão
De um jeito
Torrente
Escorrendo
Na pele

Chuva saudade
De corpo
Suado
De beijo
Melado
Sorriso
Paixão

Chuva sentida
Vertida
Do tempo
Lavando
E levando
O molhado
Da boca

(Celso Mendes)

Trajetórias

Eu ando meio cansado de ventos e tempestades, de angústias e de saudades, de frestas e dos abismos, de dores e de rancores, de chuvas, de vendavais. Eu ando meio alecrim.

Eu ando meio enjoado de sangue jorrado em vão, de feridas, de cicatrizes, de lânguidos corações, de mazelas e chorumelas, de cupidos, de serafins. É que eu ando meio alecrim.

Eu ando já saturado de tragédias e das novelas, de modelos, de passarelas, de choro, riso e consolo, de guerra, de crime e comédia, da fome e de quem consome. Pois ando é meio alecrim.

Eu ando leve, no vento, no intento do firmamento, na face que toco com a mão, no passo que não toca o chão, no espaço e no meu vazio, neste infinito e no azul, neste silêncio, em meu som, nesta magia, em meu tom. Em mim, apenas e enfim, o suave odor de alecrim.

Outono

insisto
numa espera
num destino
desatino
desta mente

insisto
ver a estrela
me sorrindo
se tingindo
de esperança

insisto
no trajeto
que imagino
ser a linha
que me guia

flutuo
neste sonho
meu outono
clama vida
e eu prossigo

(Celso Mendes)

Partícula

persigo uma aura

posso vê-la no voo rasante
contorcendo-se
em espirais multicoloridas

atiro-me

deixo meu flanco vulnerável a sombras
dispostas a me ferir a qualquer momento
eu sei

em queda livre
arrisco
insisto
não meço risco

preciso conseguir antes de o passado chegar

ir atrás
do eterno vermelho que me reflete
no negro dessas pupilas

a viajem dura apenas
enquanto a imagem existir

a vida é camaleão
o escuro quer minha companhia
mas eu pretendo seguir a luz

e vou tentar
enquanto eu puder ser
uma partícula em seus olhos

(Celso Mendes)

Tua Ausência

pingam
lembranças

e esta chuva seca essa minha reza
que não sei rezar

gota a gota
emudeço

inunda-me um cinza
que vaza em meus poros
que escorre nas mãos
amarga-me a boca
priva meus sentidos

e aqui permaneço
neste meu silêncio

neste meu silêncio
só cabem teus olhos

(Celso Mendes)

Reta Final

Por estas ruas
onde gruas
levantam penas
pesando centenas
de desejos
tenho perambulado.

Deste gelo que me queima,
deste fogo que me corta,
eu conheço bem.

Desta bruma que me despe,
deste sopro que me aquece,
conheço também.

Há muito
o tempo bate-me na cara
e muitos rios correm-me nas veias.

E continuo.

Na pele levo o amargo e guardo o doce,
o cheiro e as cicatrizes são memórias,
meus olhos têm o gosto da procura
e escuto aquelas folhas que se quedam
a espera do outono.

Pertenço à velha estirpe dos fadados
a deflorar a vida pelo acaso.
E dos passos encantados que voei
até o final do que já foi magia,
perdi a conta...

Agora só caminho sobre fio de lâmina quente.


(Celso Mendes)

Privação

a palavra unge a ação

hoje meu verbo tinge-se de ausência
ensurdece
ofusca meu foco
cala meus desejos
enquanto esses versos me rompem
rabiscam vazios
renegam-me risos
inventam verdades

hoje
o risco traçado
trai minha vontade

e a mensagem escorre nesta lacuna


(Celso Mendes)

terça-feira, 30 de março de 2010

O gosto do vácuo


um momento
transverso
percorre-me a espinha

sinto os passos
marcados
ritmados
dissipando-se
num ir sem olhos de guardar lembranças

agora o vácuo

o limiar da dor
vagueia
perigosamente
na fronteira da minha sanidade

percorro um trajeto sem chão
e me despejo na saudade

(Celso Mendes)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Presque vu


no momento em que a mente exige
essa busca do olhar
que se perde em paredes
ou se afunda na madeira da mesa
transfixa matérias
e se esvai entre imagens e sons
ao tempo exato
em que passos morrem na sua nascente
percorrem meu abismo mais frio
e pisam, descalços, nos mesmos cacos de sempre
sangrando-me os pés
é nesse instante que o movimento inexiste
que desejo do teto meu chão
que arranco minhas asas
e as devolvo ao demônio

(Celso Mendes)

sábado, 27 de março de 2010

Passeio


PASSEIO


Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço


(Celso Mendes)

Sobre esperas e compulsões










Mais um vez
mergulho.
O fundo é cego
e seu ruído surdo
martela
cada instante de ausência.
E cada palavra não dita
ecoa
numa mudez que fere.

Sístoles e diástoles
preenchem
o silêncio
da noite.

(Celso Mendes)

Mergulhando Ressacas



Não havia rebentação que me bastasse. Flutuava na areia enquanto siris se escondiam em buracos e a garoa castigava-me a pele nua. Misturado às nuvens, resolvi chover também. Salguei o mar e me consumi, escorrendo essas lamentações de praxe. Tragado pelas ondas virei oceano, bati furiosamente contra rochedos, arrastei conchas e lixo para o meu interior, criei corais, persegui cardumes de vida e, finalmente, me dirigi até o mais profundo escuro e aquietei.

Amanheci sob o sol e continuei meu caminho. Já acostumara com essas tormentas.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Minha busca


fosse pássaro
ou anjo
voaria atrás de palavras
para te agradar

sendo olhos
leio poemas
e procuro asas

(Celso Mendes)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Meu Remanso


Ando cansado desse desvario, dessa madrugada, deste fel                                                           [intumescente

Já rastejei na noite mais sombria à procura de vermes e seres                                                           [luminosos
Já andei sobre os mares mais profundos tocando o sal de suas águas                                                          [com meus pés
Já voei mil universos em companhia de seres abissais,                                                          [interestelares, subliminares
Já mergulhei em buracos de ozônio para tentar alcançar a luz
Mas só consegui queimar meus olhos, minhas mãos e minha alma

E agora eu quero voltar praquele remanso seguro
Onde o calor esvazia este gelo que me preenche
Sob a pele tosquiada, fissurada, enlameada
Onde a saliva me limpa, me cura e me regenera
Onde esses olhos me inundam de transfigurar desejos
Onde essa pele
Onde esse mel
Onde teu colo...

(Celso Mendes)

domingo, 21 de março de 2010

Aposiopese


escutar o ruído
rangido
gemido
dos ossos
enquanto o silêncio me grita

ver a pele rasgar
nas arestas
sangrar
pelas frestas
nos vértices do que já foi círculo

e sentir esta adaga
romper
este gelo
e o fogo
que habitam em minhas entranhas

nestas horas de angústia
onde a febre
insiste
insana
em revisitar meu futuro

neste então
permaneço
obtuso

e me quedo

(Celso Mendes)

sábado, 20 de março de 2010

Estou bem, obrigado.


Não sei se ando em cometas
ou num rabo de foguete.
Estou de bem com as paredes
e na janela há uma fresta.

Esta bolha de gel onde flutuo
lentifica-me,
turva-me a visão,
abafa-me a voz.

Existem flores do outro lado da rua,

o desassossego é só minha doença.

O ar está calmo,
o céu azul,
pessoas riem.

Dezenove incursões respiratórias
caladas
ouvindo os setenta batimentos cardíacos
tentarem parar o tempo,
enquanto meus cinco litros e meio de sangue
insistem circular
duas vezes por minuto por todo meu corpo
para oxigenar este cérebro,
que gera
um pensamento por hora
e se repete ciclicamente,
provam que estou vivo.

E as flores continuam do outro lado da rua,
vejo pela fresta da janela.

(Celso Mendes)