quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Madorra

deve ser mesmo assim este tempo de espera, esta madorra, este aguardo do início ou do fim. deve ser por isso esta pachorra que me assola, este naco de calma, este olhar a se perder sobre gerúndios perfilados, essas flores a pedir por vento.  e essa lua dormindo no lago, imóvel e serena, calada, deve ser mesmo assim. talvez seja apenas a estupefatez destes meus olhos desguarnecidos, talvez apenas minha fragilidade ante tanto mundo, tanto fundo, tanto tantos. o que me abriga se repete, o desafio é o novo. mas eu guardo alguns segredos só meus, os usarei quando bem aprouver. ainda tenho fome de tsunamis. mantenho a lembrança do mistério das entradas e do caminho das saídas cá comigo. usarei quando bem me aprouver.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A espera

e não há lamento:
um sereno torpor a lhe invadir  a calma
uma esperança vermelha
o risco a giz no solo negro
as letras imensas
o foco

o tempo a passar preciso
corta o escuro cirurgicamente
absoluto

e por que adiante será dia
e na noite se guardam todas as vidas à espera do fogo
repousa nos lábios
o mais suave silêncio

(Celso Mendes)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Passagem

volto
volto por que sou breve
[mas nem sempre leve]
por que sou teu sangue
sou de carne e vento
e levo este peso que corre nas veias
de todos os homens
em mim

volto
volto por que a linha é finda
e porque a linha é curta as palavras se infinitam
e os espaços se comprimem
e estes sonhos se amontoam

ossos me suportam
água me aglutina
fogo me alimenta

sou pedra, rio, tempestade
verto
reciclo
chovo, chovo
mas não para sempre
: por isso volto

volto por que
a luz é breve
eterna
é a escuridão

(Celso Mendes)

sábado, 9 de maio de 2015

A Sinapse

é no silêncio que ocorre a palavra
fecunda-se o poema
cresce a substância primária da língua
a condição incorruptível do talvez
e a geometria do vazio se arremete
ante a luz

é ainda no escuro que descansa a imagem
que repousa o verbo
que se abranda o inferno
e que todos os cacos de ternura confluem
em um só oceano
de relâmpagos

e é na sinapse que a faísca insiste
e no princípio é que germina o fim

(Celso Mendes)

sábado, 2 de maio de 2015

Brevidades de silêncio e luz


Sobre ser


o que fui morreu
mas habito em teus olhos
perene

somos fotografias e te povoo
e eu serei apenas o que morrerei

mas sei
: ainda serei

e aguardo em teus olhos

[vem!]

(Celso Mendes)


Sobre não ser


contamino a pureza natural dos instintos
esta noite toda escuridão há de me abraçar
e só o silêncio será música


(Celso Mendes)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Alguns segredos


eu tinha em minhas mãos o segredo do rio
plúvio
agia com a mais bela insensatez da palavra desregrada
filtrava tua areia em teia de seda
alimentava silêncios
e descomedia paixões

o segregar da luz compunha-me horizontes
de tintas e conteúdos inomináveis
únicos
que entendiam minhas polpas digitais
mas, mágicos, perfilavam-se inutilmente
ante os olhos esbugalhados
de luas
e sóis

não mais te cantei por força
desta mudez inexorável que me aflora
óssea
medular
rude
[e tacitamente tátil]

embrenhei-me nos mesmos versos pífios
que me refletiam
além do mar
além de mim
além do além
aqui
aqui


e a sós
me concebi
um poema
um poema meu
e de mais ninguém

(Celso Mendes)