sexta-feira, 22 de julho de 2016

Breve presságio em poema duro














não há suavidade
nesta palavra que me rasga
que revela o ruído da água visceral
revolve minha areia
e fere-me
fotograficamente

não, não há suavidade
nesta palavra que me unge
bélica
espessa
quente

enquanto esses pássaros
impunes
insistem pousar

Celso Mendes

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Cálido













e não ouvi
de tua boca
a seda
nem vi o sândalo
ou o céu
em teus olhos
a me falar de sol

por que, meu bem
minha palavra lacra-se
solitária
e muda
em tua cabeça
se é de teus dentes
o veneno
que me mata e grita
em gotas
e de tua pele
esta eterna
insolvência
cálida
que me faz viver?

(Celso Mendes)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O que tiver de ser


então que venha devagar. suavemente se esparrame, preencha os sentidos mas não os espaços, abrigue-se aqui. que permaneça, aninhe-se, faça morada, mimetize-se cada vez mais e mais e mais até se tornar imperceptível. que se faça entender tão claramente, tão completamente, tão naturalmente que, aí então e só então, me pertença sem ser meu.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Madorra

deve ser mesmo assim este tempo de espera, esta madorra, este aguardo do início ou do fim. deve ser por isso esta pachorra que me assola, este naco de calma, este olhar a se perder sobre gerúndios perfilados, essas flores a pedir por vento.  e essa lua dormindo no lago, imóvel e serena, calada, deve ser mesmo assim. talvez seja apenas a estupefatez destes meus olhos desguarnecidos, talvez apenas minha fragilidade ante tanto mundo, tanto fundo, tanto tantos. o que me abriga se repete, o desafio é o novo. mas eu guardo alguns segredos só meus, os usarei quando bem aprouver. ainda tenho fome de tsunamis. mantenho a lembrança do mistério das entradas e do caminho das saídas cá comigo. usarei quando bem me aprouver.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A espera



















e não há lamento:
um sereno torpor a lhe invadir  a calma
uma esperança vermelha
o risco a giz no solo negro
as letras imensas
o foco

o tempo a passar preciso
corta o escuro cirurgicamente
absoluto

e por que adiante será dia
e na noite se guardam todas as vidas à espera do fogo
repousa nos lábios
o mais suave silêncio

(Celso Mendes)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Passagem


volto
volto por que sou breve
[mas nem sempre leve]
por que sou teu sangue
sou de carne e vento
e levo este peso que corre nas veias
de todos os homens
em mim

volto
volto por que a linha é finda
e porque a linha é curta as palavras se infinitam
e os espaços se comprimem
e estes sonhos se amontoam

ossos me suportam
água me aglutina
fogo me alimenta

sou pedra, rio, tempestade
verto
reciclo
chovo, chovo
mas não para sempre
: por isso volto

volto por que
a luz é breve
eterna
é a escuridão

(Celso Mendes)