sábado, 8 de novembro de 2014

Pseudopoema branco para musas do fogo


como hei de fazer um poema
se não me escarram palavras
com sangue para cuspir
se não há fogo em minha glote
ou frio no plexo celíaco
se a estrada estaciona calma em minha porta
sem placas ou avisos
e se não sei o trecho onde encontrar meus rubros?

delicadezas não me compõem
[palavras azuis ou rosas são para delicados, não quero confessá-las aqui]

então
diga-me
que devo fazer se
neste momento
em minhas mãos
tenho apenas um ramalhete de versos  brancos
e frágeis
para te ofertar?

#celsomendes

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Prosaico


o brilho seco, o sol a pino.  tentou bebê-lo, mas engasgou. agora saciava-se de sombra. agora só lembranças caleidoscópicas. então ele abocanhava pedacinhos. cuidadosamente, grão a grão. não, não era areia de castelo, eram outros secretos tesouros. e os olhos secavam lentamente; agora eram lágrimas de sílica em borras de grafite. agora água era o que dela ficara, da saliva dos lábios, da umidade íntima, do suor dos membros entrelaçados, dela, sim, dela toda. era o que bebia. abriu os olhos devagar, olhou a velha janela e algum mundo lá fora, mirou a pele enrugada e ponteada de melanina de seus braços. que tem aqui para mim? — pensou — e cerrou as pálpebras novamente, rumo ao mundo que enfim adotara. na boca um sorriso raso, quase imperceptível; na mente um infinito pretérito a se renovar continuamente.

Celso Mendes

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Criação


no princípio é o silêncio.
do vazio ao voo
habitar o vento
onde o grão é luz
e a palavra é gérmen.

ver o verbo romper a membrana
e sangrar.

(Celso Mendes)

sábado, 6 de setembro de 2014

O último verso


de migalhas de sonhos quase esquecidos
em noites infinitas,
de milhares de paredes que risquei
com centelhas de anos-luz,
de luzes que plantei,  de escuros que aprendi,
de sinais
e de sintomas
faço um novo dia
sob o mesmo sol
que já nem brilha como antes
mas continua a me esperar.
[até o último verso]

Celso Mendes

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Autofocus
pequeno retrato amador de um dia de inverno  sul-americano


amanheço.
há uma réstia de noite
e o gosto de agosto a me soprar o rosto
a verter da janela.
pilhas de lembranças sobre o colchão
ainda dormem
esquecidas
gota a gota.

na boca o doce e o ácido,
na pele o tempo.

os fios piam seus pássaros
como de praxe.
postes descansam, esquinas acendem.

não converso com o vento. sinto-o.
hoje soprou-me frio, mas não calado.
pouco  sei do lume que me corta
ou da aridez das palavras segredadas,
mas sei daquilo que exala o vento
e de seu rastro solitário de silêncio.

entardeço sol adentro.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Precisão


é preciso o toque
e o que navego são teus rios
vãos
tuas águas turvas e tua pureza mais crua

é preciso o olhar
a atingir toda minha profundeza
na superfície mais leve
da luz

é preciso o som
teu canto e minha música
um sopro
certeiro
esta voz que me preenche

é preciso este amor
que arde, urge, cala
letal
impreciso
final

(Celso Mendes)

sábado, 21 de junho de 2014

Latências

porque há silêncios que criam, silêncios que destroem e aqueles que apenas aguardam

bem sinto o bater das palavras

— querem sair —

este silêncio infla um vazio quase inexpugnável
que corrói-me dentes
e língua
engaveta-me a alma
e meus verbos
desatina meus rubros

mas a poesia persiste
subsiste calada
latente
a latejar cada pulsar

(Celso Mendes)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cicatrizes


Parte 1

ele tinha marcas de chumbo em olhos nus de silêncio. pairava seu torpor em nuvens sulfurosas de lembranças a lhe dissecar a mente. pedia alívio em colchetes e parênteses de papoula e beladona. insistia viver, mas doía. queria descanso, paz, queria vazios (e aquele pedaço perdido do universo-solidão). o ruído era sangue. ecoavam-lhe hemorragias. não percebia a eternidade que transfixa tímpanos, a imortalidade de cada toque. a luz era tanta que lhe queimava a lucidez. só lhe faltava compreender que cada janela aberta às pupilas é infinita. e aprender a deixar que a leveza reja o entender. ao acordar talvez conheça o porquê de um novo dia.       

Parte 2

e então passou a ficar. apenas ficava, não tinha mais pressa. sorvia tudo plenamente, irremediavelmente. bem tentava não calcular o risco, mas já tinha algumas contas decoradas que o impregnavam: não importava. acedia ao escuro e celebrava a luz. foi assim. as perguntas precisavam-se suaves e respostas não foram mais necessárias, bastava sonhá-las. 
um dia percebera que a dor é real mas a felicidade imaginária, a mente a construía. depois acabou por perceber que tudo é sonho. que a realidade é matéria, mas não somos matéria, somos energia, e só. e que o destino é o agora. porque é sempre agora que chega a partida. o novo não espera, acontece. e essa luz… ainda não entendeu. seria preciso?

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Linear










há  uma tinta que me unge e urge
e neste momento não tenho segredos
apenas palavras futuras
e um impenetrável silêncio
que assola minhas linhas
de luzes tão tênues

(Celso Mendes)

domingo, 11 de maio de 2014

O TIRO


uma linha solitária
entre tantas paralelas

alvos em série

viro
não miro
atinjo um ponto

chuvisco cinzento
veludo cotelê
brisa gelada
calor de mãe

era um ponto distante

(Celso Mendes)

uma lembrança, uma eu criança, uma minha mãe

sábado, 26 de abril de 2014

Sincronicidade


cada espelho que atravesso
me lembra
em cada dia que anoiteço
que todo sol que ouso acender
e todo gesto que tento calar
não são mais só meus

(Celso Mendes)


sábado, 19 de abril de 2014

(A) Mar a dois

Foto do autor
o mar 
abraça o sol
e o sal
e a boca muda
aberta
em poente
em calma espuma
de olhos-ondas
num amar que só
anoitecendo
línguas
que se abraçam

é mar e sal
é mar que só
só sol e mar

à noite nós
sós

(Celso Mendes)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sussurros


o sussurro de um segredo me assusta
me aflige
a solidão do silêncio não
[mas ambos me excitam]

eu creio na verdade da brisa
pois não domino
a pureza da luz
ou a franqueza do escuro

só sei o que sou
sou só o que habito
habito o que sinto:

a pele é testemunha da chuva
e cada lágrima da lua emociona

(Celso Mendes)

sábado, 5 de abril de 2014

O GUME


coleciono pétalas com gumes afiados

uma calmaria habita-me a carne
a espera do corte
a espera do sangue

uma eletricidade arterial me inunda
enquanto hiberno

relâmpagos
vejo que ainda os sinto

esperas
sinto que ainda as vivo

coleciono pétalas de gumes cortantes


(Celso Mendes)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tocaia


a eletricidade
tece teias
em minha pele
que não é mais seda
mas tem sede
e leva, lívida
o denso odor
de todo um mundo
que me impregna

neste momento não há escolhas
e um só rio me carrega
ao azul oceânico onde me refugio
nestes dias de espera

(Celso Mendes)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Caminhando através da luz


não que eu queira explicar. é como absinto: me cheira a luz. mas sinto. e se esparrama em poças de histórias sob meus pés a cada fração de passado. e a picada da abelha é que leva ao êxtase quando se atraca ao doce do escorpião. não é a luz, é o que ela incita na mente ao captar seu reflexo. não é o som, é seu ritmo a cravar no hipotálamo. não é a lógica, é a desconstrução que me excita e estimula. e nem sei pra que dizer tudo isso aqui — um impulso, e só. mas nada é como já foi e acabo de me reinventar mais uma vez sob a pena de um bico sonhador. (seria atrevimento meu querer caminhar através da luz?).

Celso Mendes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Divagar, e sempre

(I)

sopram-me segredos oceânicos
[estabeleço uma latitude inatingível para meus sonhos]


(II) 

sobre  palavras que buscam o encanto
que ao vento se vergam
frugais
palavras de trigo
palavras que alimentam almas
debruço-me


(III)

do que foi dito
da lida, do lido
da prece aprendida ao olhar da noite
das confissões à sombra
rasgo fantasmas ao fogo de rochas cadentes
guardo o lume
insemino um novo sol
e prossigo


(IV)

de brisa leve ou de furacão. aprendi que chuva sempre pinga vida. que tempestade renova.
(no movimento perpétuo da matéria, a constatação de que somos mutantes)


(V)

— |acendo estrelas para cada novo sono•às vezes chove•amanhã acendo outra vez•às vezes brilha•acendo•por vezes dói•acendo•sempre vale a pena•um dia sei que apagarei|



(Celso Mendes)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fugaz


do pensar
ao dizer
um momento
que hesita
existir
num olhar que agoniza

o tempo engole palavras

a  saliva que seca
murcha a frase
que fica
a vontade que míngua
o gosto
acre
grudado na língua

(Celso Mendes)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ser de luz


é vazia de noites
e de silêncios
a casa da luz
que em mim abrigo

vazia de um  endoidecer entardeceres sob carícias perdidas em horizontes
vazia como estes olhos
órfãos de uma película de sombra emprestada ao espanto
em sua eterna embriaguez
vazia como o sol
no aguardo do escuro mistério das palavras que se abortam
que não se criam
que só se sentem

eu reconheço esse escuro
eu reconheço
mas impossível vê-lo
na plenitude de seu nada

e quando o sinto
sísmico
evoca-me lembranças
[novamente a luz]

pele, pele, pele, pele
tanta , tanto
o toque leve
fundo
fundo

quantos segredos partilhados


(Celso Mendes)