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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Dança no escuro

os  dentes na pele
a água
o sangue latente

nado com os crocodilos
mas é o único lago que conheço

o brilho dos ossos no escuro
me avisa
beleza e força
dançam juntos

amanhã talvez eu volte para sempre
hoje estou cansado
de partir

beleza e força dançam juntos
hoje é música
e os ossos brilham no escuro
languidamente
e acendem os novos olhos da noite
outra vez

dança para mim só mais uma vez, meu bem
dança no escuro
ao brilho dos ossos
acende a música
e teus olhos

só mais uma vez

(Celso Mendes)


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Brisa

que não me espreite o vento como às feras
pois minha morte é caminho solitário
e desta vida nada mais sei
que o esconderijo
onde bem guardo
todos os meus olhos

que não me espreite o vento
apenas
leve

bem leve


(Celso Mendes)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Cálido

e não ouvi
de tua boca
a seda
nem vi o sândalo
ou o céu
em teus olhos
a me falar de sol

por que, meu bem
minha palavra lacra-se
solitária
e muda
em tua cabeça
se é de teus dentes
o veneno
que me mata e grita
em gotas
e de tua pele
esta eterna
insolvência
cálida
que me faz viver?

(Celso Mendes)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A espera

e não há lamento:
um sereno torpor a lhe invadir  a calma
uma esperança vermelha
o risco a giz no solo negro
as letras imensas
o foco

o tempo a passar preciso
corta o escuro cirurgicamente
absoluto

e por que adiante será dia
e na noite se guardam todas as vidas à espera do fogo
repousa nos lábios
o mais suave silêncio

(Celso Mendes)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Passagem

volto
volto porque sou breve
[mas nem sempre leve]
porque sou de sangue
sou de carne e vento
e levo este peso que corre nas veias
de todos os homens
em mim

volto
volto porque a linha é finda
e porque a linha é curta as palavras se infinitam
e os espaços se comprimem
e estes sonhos se amontoam

ossos me suportam
água me aglutina
fogo me alimenta

sou pedra, rio, tempestade
verto
reciclo
chovo, chovo
mas não para sempre
: por isso volto

volto por que
a luz é breve
eterna
é a escuridão

(Celso Mendes)

sábado, 9 de maio de 2015

A Sinapse

é no silêncio que ocorre a palavra
fecunda-se o poema
cresce a substância primária da língua
a condição incorruptível do talvez
e a geometria do vazio se arremete
ante a luz

é ainda no escuro que descansa a imagem
que repousa o verbo
que se abranda o inferno
e que todos os cacos de ternura confluem
em um só oceano
de relâmpagos

e é na sinapse que a faísca insiste
e no princípio é que germina o fim

(Celso Mendes)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Alguns segredos


eu tinha em minhas mãos o segredo do rio
plúvio
agia com a mais bela insensatez da palavra desregrada
filtrava tua areia em teia de seda
alimentava silêncios
e descomedia paixões

o segregar da luz compunha-me horizontes
de tintas e conteúdos inomináveis
únicos
que entendiam minhas polpas digitais
mas, mágicos, perfilavam-se inutilmente
ante os olhos esbugalhados
de luas
e sóis

não mais te cantei por força
desta mudez inexorável que me aflora
óssea
medular
rude
[e tacitamente tátil]

embrenhei-me nos mesmos versos pífios
que me refletiam
além do mar
além de mim
além do além
aqui
aqui


e a sós
me concebi
um poema
um poema meu
e de mais ninguém

(Celso Mendes)

sábado, 8 de novembro de 2014

Pseudopoema branco para musas do fogo


como hei de fazer um poema
se não me escarram palavras
com sangue para cuspir
se não há fogo em minha glote
ou frio no plexo celíaco
se a estrada estaciona calma em minha porta
sem placas ou avisos
e se não sei o trecho onde encontrar meus rubros?

delicadezas não me compõem
[palavras azuis ou rosas são para delicados, não quero confessá-las aqui]

então
diga-me
que devo fazer se
neste momento
em minhas mãos
tenho apenas um ramalhete de versos  brancos
e frágeis
para te ofertar?

#celsomendes

sábado, 6 de setembro de 2014

O último verso


de migalhas de sonhos quase esquecidos
em noites infinitas,
de milhares de paredes que risquei
com centelhas de anos-luz,
de luzes que plantei,  de escuros que aprendi,
de sinais
e de sintomas
faço um novo dia
sob o mesmo sol
que já nem brilha como antes
mas continua a me esperar.
[até o último verso]

Celso Mendes

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Autofocus
pequeno retrato amador de um dia de inverno  sul-americano


amanheço.
há uma réstia de noite
e o gosto de agosto a me soprar o rosto
a verter da janela.
pilhas de lembranças sobre o colchão
ainda dormem
esquecidas
gota a gota.

na boca o doce e o ácido,
na pele o tempo.

os fios piam seus pássaros
como de praxe.
postes descansam, esquinas acendem.

então converso com o vento. sinto.
hoje soprou-me frio, mas não calado.
pouco  sei do lume que me corta
ou da aridez das palavras segredadas,
mas sei daquilo que exala o vento
e de seu rastro solitário de silêncio.

entardeço sol adentro.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Precisão


é preciso o toque
e o que navego são teus rios
vãos
tuas águas turvas e tua pureza mais crua

é preciso o olhar
a atingir toda minha profundeza
na superfície mais leve
da luz

é preciso o som
teu canto e minha música
um sopro
certeiro
esta voz que me preenche

é preciso este amor
que arde, urge, cala
letal
impreciso
final

(Celso Mendes)

sábado, 21 de junho de 2014

Latências

porque há silêncios que criam, silêncios que destroem e aqueles que apenas aguardam

bem sinto o bater das palavras

— querem sair —

este silêncio infla um vazio quase inexpugnável
que corrói-me dentes
e língua
engaveta-me a alma
e meus verbos
desatina meus rubros

mas a poesia persiste
subsiste calada
latente
a latejar cada pulsar

(Celso Mendes)

sábado, 19 de abril de 2014

(A) Mar a dois

Foto do autor
o mar 
abraça o sol
e o sal
e a boca muda
aberta
em poente
em calma espuma
de olhos-ondas
num amar que só
anoitecendo
línguas
que se abraçam

é mar e sal
é mar que só
só sol e mar

à noite nós
sós

(Celso Mendes)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sussurros


o sussurro de um segredo me assusta
me aflige
a solidão do silêncio não
[mas ambos me excitam]

eu creio na verdade da brisa
pois não domino
a pureza da luz
ou a franqueza do escuro

só sei o que sou
sou só o que habito
habito o que sinto:

a pele é testemunha da chuva
e cada lágrima da lua emociona

(Celso Mendes)

sábado, 5 de abril de 2014

O GUME


coleciono pétalas com gumes afiados

uma calmaria habita-me a carne
a espera do corte
a espera do sangue

uma eletricidade arterial me inunda
enquanto hiberno

relâmpagos
vejo que ainda os sinto

esperas
sinto que ainda as vivo

coleciono pétalas de gumes cortantes


(Celso Mendes)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tocaia


a eletricidade
tece teias
em minha pele
que não é mais seda
mas tem sede
e leva, lívida
o denso odor
de todo um mundo
que me impregna

neste momento não há escolhas
e um só rio me carrega
ao azul oceânico onde me refugio
nestes dias de espera

(Celso Mendes)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ser de luz


é vazia de noites
e de silêncios
a casa da luz
que em mim abrigo

vazia de um  endoidecer entardeceres sob carícias perdidas em horizontes
vazia como estes olhos
órfãos de uma película de sombra emprestada ao espanto
em sua eterna embriaguez
vazia como o sol
no aguardo do escuro mistério das palavras que se abortam
que não se criam
que só se sentem

eu reconheço esse escuro
eu reconheço
mas impossível vê-lo
na plenitude de seu nada

e quando o sinto
sísmico
evoca-me lembranças
[novamente a luz]

pele, pele, pele, pele
tanta , tanto
o toque leve
fundo
fundo

quantos segredos partilhados


(Celso Mendes)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Espuma



como ser espuma
se antes
areia

e água

como ser mar
se o gosto
é sol

se o rosto
apenas reflexo

eternamente efêmero?

(Celso Mendes)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pouso e contemplação para o que nunca se encontrará

 o motivo da existência é um elo perdido que nos prende ao instinto

há o que se suporte em trismo ou gozo
brasa escorrida em língua ou pluma em pele
a adoçar papilas ou ferir pupilas no costumeiro horizonte
no horizonte que se sabe fato
no horizonte que se sabe fátuo
no mesmo horizonte onde se deitam os girassóis
nascem constelações e se fundem
fogo, mar e sonho

o que escondo de mim
são palavras de sangue
perdidas entre o primeiro amanhecer
e o último pôr do sol

é o que me rasga um escuro
que não alcanço
guardado em uma cromatina qualquer
a queimar

(Celso Mendes)

terça-feira, 13 de março de 2012

Rota de fuga a procura do fogo

porque há buscas e desejos que são atemporais

só peço a ti duas gotas de pólen
que caminhem cores por meu nervo óptico

duas aberturas
no fundo fosco
deste corpo vítreo
onde vaze vida
para um riso raro
neste espaço escuro

só dois grãos de sol incrustados na areia
e um único voo no vácuo da luz
que se perde no espelho
e na lassidão
desse longo degredo
entoado sem voz
segredado nas sombras

só peço a ti duas contas negras e a palavra muda
.
.
.
para eu me atirar
bastam-me teus olhos

(Celso Mendes)