quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cicatrizes


Parte 1

ele tinha marcas de chumbo em olhos nus de silêncio. pairava seu torpor em nuvens sulfurosas de lembranças a lhe dissecar a mente. pedia alívio em colchetes e parênteses de papoula e beladona. insistia viver, mas doía. queria descanso, paz, queria vazios (e aquele pedaço perdido do universo-solidão). o ruído era sangue. ecoavam-lhe hemorragias. não percebia a eternidade que transfixa tímpanos, a imortalidade de cada toque. a luz era tanta que lhe queimava a lucidez. só lhe faltava compreender que cada janela aberta às pupilas é infinita. e aprender a deixar que a leveza reja o entender. ao acordar talvez conheça o porquê de um novo dia.       

Parte 2

e então passou a ficar. apenas ficava, não tinha mais pressa. sorvia tudo plenamente, irremediavelmente. bem tentava não calcular o risco, mas já tinha algumas contas decoradas que o impregnavam: não importava. acedia ao escuro e celebrava a luz. foi assim. as perguntas precisavam-se suaves e respostas não foram mais necessárias, bastava sonhá-las. 
um dia percebera que a dor é real mas a felicidade imaginária, a mente a construía. depois acabou por perceber que tudo é sonho. que a realidade é matéria, mas não somos matéria, somos energia, e só. e que o destino é o agora. porque é sempre agora que chega a partida. o novo não espera, acontece. e essa luz… ainda não entendeu. seria preciso?

7 comentários:

Ricardo Mainieri disse...

Belíssima e dolorosa prosa poética. Ao poeta coube reescrever a crueza da cena inserindo aí o humano que habita a alma de todos nós, até daqueles que parecem tê-la, definitivamente, comprometida com as sombras.

Abração.

Ricardo Mainieri

marlene edir severino disse...

Ainda se pode contar com infinitas janelas.
Abraço, poeta!

cirandeira disse...

Teu texto é tão profundo, tão dorido, que abriu-me janelas e gavetas escondidas que não consigo
encontrar as chaves para abri-las.
Será que a eternidade "transfixa"
tímpanos ou atravessa-os deixando-nos surdos e indefesos?
Os vazios da solidão, paradoxalmente, às vezes preenchem o lado obscuro do que não conseguimos perceber ou entender...!?

Um beijo, poeta

Dolce Vita disse...

Olá Celso! Ler-te é um privilégio. Há um profundo diálogo entre a palavra e a imagem. Beijos

Batom e poesias disse...

A mim, também falta compreender que cada janela aberta às pupilas é infinita e aprender a deixar que a leveza reja o entender...
Lindo texto poema, Celso.

Bjs
Rossana

Raimundo Lonato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Raimundo Lonato disse...

Almas descem no vazio. Em silêncio, revelam-se os retratos. Mergulham as palavras a sinfonia dos mistérios.