sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Autofocus
pequeno retrato amador de um dia de inverno  sul-americano


amanheço.
há uma réstia de noite
e o gosto de agosto a me soprar o rosto
a verter da janela.
pilhas de lembranças sobre o colchão
ainda dormem
esquecidas
gota a gota.

na boca o doce e o ácido,
na pele o tempo.

os fios piam seus pássaros
como de praxe.
postes descansam, esquinas acendem.

não converso com o vento. sinto-o.
hoje soprou-me frio, mas não calado.
pouco  sei do lume que me corta
ou da aridez das palavras segredadas,
mas sei daquilo que exala o vento
e de seu rastro solitário de silêncio.

entardeço sol adentro.

(Celso Mendes)

3 comentários:

Ricardo Mainieri disse...

Belo poema, de uma tristeza discreta
que impregna os versos.
O poeta aponta seu foco para as pequenas realidades cotidianas e extraí imagens e metáforas consistentes.
Parabéns!

cirandeira disse...

O vento nos sopra lembranças mas o "senhor tempo" as afasta, para quem sabe podermos prosseguir, mesmo não conseguindo esquecê-las.
Belo e forte, esse teu poema, Celso. Fico impressionada com a tua sensibilidade, essa rara capacidade para expressar sentimentos tão profundos!

Um beijo, poeta querido!

Dolce Vita disse...

Que beleza, Celso! Bom demais ler-te! Beijos