sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sussurros


o sussurro de um segredo me assusta
me aflige
a solidão do silêncio não
[mas ambos me excitam]

eu creio na verdade da brisa
pois não domino
a pureza da luz
ou a franqueza do escuro

só sei o que sou
sou só o que habito
habito o que sinto:

a pele é testemunha da chuva
e cada lágrima da lua emociona

(Celso Mendes)

sábado, 5 de abril de 2014

O GUME


coleciono pétalas com gumes afiados

uma calmaria habita-me a carne
a espera do corte
a espera do sangue

uma eletricidade arterial me inunda
enquanto hiberno

relâmpagos
vejo que ainda os sinto

esperas
sinto que ainda as vivo

coleciono pétalas de gumes cortantes


(Celso Mendes)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Tocaia


a eletricidade
tece teias
em minha pele
que não é mais seda
mas tem sede
e leva, lívida
o denso odor
de todo um mundo
que me impregna

neste momento não há escolhas
e um só rio me carrega
ao azul oceânico onde me refugio
nestes dias de espera

(Celso Mendes)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Caminhando através da luz


não que eu queira explicar. é como absinto: me cheira a luz. mas sinto. e se esparrama em poças de histórias sob meus pés a cada fração de passado. e a picada da abelha é que leva ao êxtase quando se atraca ao doce do escorpião. não é a luz, é o que ela incita na mente ao captar seu reflexo. não é o som, é seu ritmo a cravar no hipotálamo. não é a lógica, é a desconstrução que me excita e estimula. e nem sei pra que dizer tudo isso aqui — um impulso, e só. mas nada é como já foi e acabo de me reinventar mais uma vez sob a pena de um bico sonhador. (seria atrevimento meu querer caminhar através da luz?).

Celso Mendes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Divagar, e sempre

(I)

sopram-me segredos oceânicos
[estabeleço uma latitude inatingível para meus sonhos]


(II) 

sobre  palavras que buscam o encanto
que ao vento se vergam
frugais
palavras de trigo
palavras que alimentam almas
debruço-me


(III)

do que foi dito
da lida, do lido
da prece aprendida ao olhar da noite
das confissões à sombra
rasgo fantasmas ao fogo de rochas cadentes
guardo o lume
insemino um novo sol
e prossigo


(IV)

de brisa leve ou de furacão. aprendi que chuva sempre pinga vida. que tempestade renova.
(no movimento perpétuo da matéria, a constatação de que somos mutantes)


(V)

— |acendo estrelas para cada novo sono•às vezes chove•amanhã acendo outra vez•às vezes brilha•acendo•por vezes dói•acendo•sempre vale a pena•um dia sei que apagarei|



(Celso Mendes)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fugaz


do pensar
ao dizer
um momento
que hesita
existir
num olhar que agoniza

o tempo engole palavras

a  saliva que seca
murcha a frase
que fica
a vontade que míngua
o gosto
acre
grudado na língua

(Celso Mendes)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ser de luz


é vazia de noites
e de silêncios
a casa da luz
que em mim abrigo

vazia de um  endoidecer entardeceres sob carícias perdidas em horizontes
vazia como estes olhos
órfãos de uma película de sombra emprestada ao espanto
em sua eterna embriaguez
vazia como o sol
no aguardo do escuro mistério das palavras que se abortam
que não se criam
que só se sentem

eu reconheço esse escuro
eu reconheço
mas impossível vê-lo
na plenitude de seu nada

e quando o sinto
sísmico
evoca-me lembranças
[novamente a luz]

pele, pele, pele, pele
tanta , tanto
o toque leve
fundo
fundo

quantos segredos partilhados


(Celso Mendes)