quarta-feira, 23 de março de 2011

Filha da noite

Por onde perambulam os sonhos de milhares de meninas e meninos?

há uma ruptura neste azul que te acinzenta
e te empalidece os olhos
sob o frio deste sol
a iluminar
mais uma manhã que não sorri

migalhas de gemidos
dançam
nos vãos de teus dentes amarelo-tabaco
sob a vertigem de estrelas artificiais
regada a alcalóides e anfetaminas
de fins de noite
em que luas se cobrem de limo
entre lençóis acres
torporosamente revirados
e fumaça

resta o vazio
a latejar ouvidos
o corpo cansado
ranhuras de amores fantasmas na pele
um choro no esôfago
e sonhos de princesa
trancafiados na masmorra
dos dias

amanhã
talvez
um talvez indolor
uma flor
nova cor
amanhã
de manhã

talvez

(Celso Mendes)

23 comentários:

« Katyuscia Carvalho » disse...

Há pincéis pelo teu poema... palavras se personificando em tela, com movimento e som.

Muito bonitas sinestesias.

Celso Mendes disse...

Obrigado, Katyuscia. Sua presença aqui é uma honra para mim...

Celso Mendes disse...

"Prostituição: vender o corpo para o prazer de outras pessoas. A prostituição só é crime quando uma pessoa: convence, induz ou atrai alguém a praticar ato sexual com outras pessoas; impede que alguém saia da prostituição; tem lucro ou é sustentado com a prostituição de outra pessoa; mantém casa de prostituição. Pena: reclusão de 1 a 10 anos e multa. A prostituição não é crime para a pessoa que se prostitui por vontade própria."
(Código Penal, arts. 227 a 230)

Lara Amaral disse...

Não há nem o que dizer de um poema que começa assim. Uau!
Como é bom vir aqui para ler com todos os sentidos.

Beijo.

Lillyando disse...

A vontade própria dita na lei é questionável ao viés da fome e urgência de sobrevida: "um choro no esôfago/e sonhos de princesa/ trancafiados na masmorra dos dias". Teu poema-denúncia clarifica que não existe a "vontade própria" destas crianças, mas a miséria que as persegue e as prostitui. Obrigada, Celso!

Celso Mendes disse...

Obrigado meninas! É verdade o que disse Lilly. Eu apenas transcrevi o que diz a lei, mas ela não leva em conta as realidades sociais regionais, realmente.

Beijos.

Batom e poesias disse...

Larinha mandou e cá estou eu.
Tão triste, mas lindamente descrito.

bj
Rossana

Ludmila Rodrigues disse...

Você é maravilhoso. Lara me guiou até aqui e foi paixão imediata.
Está convidado a me ler também.
Um beijo.

Larissa Marques disse...

muito belo, querido!
como sempre!

rauau disse...

O mestre é você, eu simples aprendiz
Abraço

Assis Freitas disse...

enquanto houver amanhã,


grande abraço

Celso Mendes disse...

Pessoas de rara habilidade com palavras aqui comentando... isso é muito gratificante!

Obrigado a todos!

Abraços!

Lídia Borges disse...

Destaco a sensibilidade de trazer ao poema este tema de um quotidiano injusto que excluiu.
E as janelas abertas a um amanhã que se espera de sol.

Um beijo

Márcio Ahimsa disse...

Talvez, amanhã, o verbo atrofiado,
a lingua inventada
numa metalinguística pura
para não dizer, somente.
Amanhã, o seu olhar de vidro,
ela ainda carente
com o brilho do dia
pousando nos olhos
o lume postiço da noite...
Inventa romances
e tece uma prece
para que acabem logo.
Entre o amor e o lençol,
um verniz de seda
para para cobrir
a alma nesse souvenir
de sorriso,
nessa solidão.

Abraço Celso. Aqui, também as palavras são signos e significados. Aqui, também, a poesia floresce.

Suzana Martins disse...

Uau...

Silencio diante da maestria de seus versos!!

Peerfeito!!!

Beijos

Celso Mendes disse...

Mais uma vez agradeço a todos que comentaram, muito pela primeira vez aqui, o que me deixa muito feliz.

E, Márcio, que bela réplica, meu caro!

Abraços a todos...

trasforme-se disse...

adoreiiiii!
nao escrevo poemas ,mas gosto de ler!
trabalho em um projeto em um presidio feminino e sei como funciona a cabeça das meninas de lá ,da periferia!

Tania regina Contreiras disse...

Uma exelente indicação da Lara...Um poema com odores fortes, com cores berrantes, mas que, num instante, pode se transformar, porque poemas também transformam almas e olhares.
Abraços,

Márcia Cristina Lio Magalhães disse...

"amanhã
talvez
um talvez indolor
uma flor
nova cor
amanhã
de manhã

talvez"

Gostei do teu espaço, da tua veia poética...
Em tempo voltarei pra te ler com a devida calma...

Um abraço...

Celso Mendes disse...

Obrigado, gente.

Tania: uma honra tê-la aqui!

Márcia, espero que volte e dê sua opinião.

Beijos!

Jorge Pimenta disse...

amigo celso,
sinto-me ainda a ressacar desta tela que nos arremessa contra os becos e as vielas que nos percorrem homens.
um abraço!

Jorge Pimenta disse...

ah, uma derradeira nota para a escolha musical: emparelha na perfeição. as claves não são de sol, mas de sombras.
adoro placebo!
abraço renovado!

Milene Souto disse...

Tão triste é a realidade (escolhida ou não) de muitos meninos e meninas... seu poema expressa ela com maestria... muito belo, beijos!