segunda-feira, 9 de maio de 2011

Círculos


Deitava o vento com a boca amordaçada. O seu silêncio era imposição dos girassóis que refletiam-lhe os braços, as mãos e seus dedos amarelecidos. Mascava o sol dia pós dia, desconfiado, e se sentia cada vez mais enraizado. Gostava do azul das manhãs e do laranja das auroras. O marinho da noite o embriagava. Mantinha, secretamente, olhos de nadar estrelas. A lua costumava tocar suavemente suas costas até que adormecesse. Após isso era a o medo da treva, era atrás dos astros, era depois dos sonhos. Se houvera luz, não se lembraria. Mas o tempo sempre lhe foi muito orbital. Não entendia por que as coisas tinham essa mania de orbitar. Retas, pois sim, retas eram apenas uma eterna ilusão de caminhos; nunca mais o levavam a um novo que já não conhecesse. E foi assim que, mais uma vez, o sol se desprendeu do seu bocejo, preguiçosamente. Ainda não era a hora da escuridão.

22 comentários:

Luiza Maciel Nogueira disse...

lindo isso Celso, de encantar

bjs

Sandrio cândido. disse...

E quando será a hora da escuridão se até a noite é iluminada pelas estrelas?
Texto profundo este
abraços

Lara Amaral disse...

Pura lira, deixo tocar, ouço de olhos fechados.

Beijo!

Cris de Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris de Souza disse...

magnífico!

embalou-me, um verso mais deleitoso que o outro...

beijo, doutro da lira.

Jorge Pimenta disse...

até a mais longa das rectas esconde desvios e curvas sinuosas. o difícil é antecipá-las, ou não fossem invisíveis ao olhar...
afinal, todas as horas escondem o final do dia - mesmo que sem escuridão... mesmo que não sabendo ler o tempo... mesmo que a contragosto...
um abraço, celso-poeta!

ErikaH Azzevedo disse...

Por que definitivamente há noites com sol... e pq não dizer que há um pequeno sol dentro de cada estrela?
Texto belissimo menino, as tuas estrelas carregas nas pontas dos dedos...
Grande beijo

Erikah

Wania disse...

Celso

Com a lua lhe tocando suavemente as costas e o sol se desprendendo do seu bocejo... para que chegar? Melhor é ficar orbitando em si mesmo, nos Círculos das cores!


Linda prosa!
Bjs de sonhar acordada

OceanoAzul.Sonhos disse...

Em silêncio o sol brilha mais, o azul das manhãs é mais azul, o marinho da noite tem mais poder.
Que poema lindo para sonhar.
Adorei!
oa.s

Suzana Martins disse...

Quanto lirismo e sensibilidade!!

A luz que toca o sentir clareia a derme e traz no olhar o almejar dos dias...

Lindo demais, meu querido!!^^

Daniela Delias disse...

Das coisas mais lindas que já li nessa vida...grata pelo momento! Bjão!!!

Lídia Borges disse...

Um percurso poético através das horas "redondas" do dia. Muito bonito!...

Um beijo
L.B.

Teresinha Oliveira disse...

Tanto sol, tanta lua, e nada muda. Nem nós.

Tiago Furtado disse...

Bom texto, gostei muito. Abraços, passa no meu :)

marlene edir severino disse...

Rota orbital
de tantos tons, brilhos...

De embriagar tanto lirismo, Celso!

Beijo, amigo!

Marlene

Menina no Sotão disse...

Eu que adoro o sabor da escuridão, me senti aqui como se tivesse observando minhas laterais ao longo das horas do dia. Seria abuso pedir para seu texto participar da última edição da revista perspectivas?

bacio

Celso Mendes disse...

Lunna, seria uma honra para mim ter meu texto lá. Se quiser usá-lo, disponha...

bacio.

Parole disse...

Deslumbrante.

Teu poema é redondo, Celso, não tem arestas, quinas... é suave o caminhar dos olhos sobre ele.

Beijos, querido e parabéns.

Parole disse...

Lembro-me de ter comentado esse post maravilhoso, mas deve ter se perdido com os últimos acontecimentos da Google, mas é sempre muito bom te ler.

Beijos, querido e ótimo domingo.

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, Celso.

Que texto lindo! Poeticamente sentido, estruturalmente perfeito. ADOREI!

Grande abraço e obrigada pelo carinho de sempre lá no Hiperestesia. :)

Fernand's disse...

A P L A U S O S!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


um dos mais lindos que já aqui.
obrigada, querido.

bjsmeus

CARLA STOPA disse...

Que seja eterno esse sol...