terça-feira, 26 de março de 2013

Mariah

semente
de leite

o dente
ri
criança

e morde
colorido
minhas
pupilas
acinzentadas

(Celso Mendes)


Pequena balada para qualquer criança

enquanto há vento e algum alento
invento um verso, um voo inverso
atento e a tempo
enfim e assim
de ver pousar
teu riso
em mim

(Celso Mendes)


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pouso e contemplação para o que nunca se encontrará

 o motivo da existência é um elo perdido que nos prende ao instinto

há o que se suporte em trismo ou gozo
brasa escorrida em língua ou pluma em pele
a adoçar papilas ou ferir pupilas no costumeiro horizonte
no horizonte que se sabe fato
no horizonte que se sabe fátuo
no mesmo horizonte onde se deitam os girassóis
nascem constelações e se fundem
fogo, mar e sonho

o que escondo de mim
são palavras de sangue
perdidas entre o primeiro amanhecer
e o último pôr do sol

é o que me rasga um escuro
que não alcanço
guardado em uma cromatina qualquer
a queimar

(Celso Mendes)

terça-feira, 13 de março de 2012

Rota de fuga a procura do fogo

porque há buscas e desejos que são atemporais

só peço a ti duas gotas de pólen
que caminhem cores por meu nervo óptico

duas aberturas
no fundo fosco
deste corpo vítreo
onde vaze vida
para um riso raro
neste espaço escuro

só dois grãos de sol incrustados na areia
e um único voo no vácuo da luz
que se perde no espelho
e na lassidão
desse longo degredo
entoado sem voz
segredado nas sombras

só peço a ti duas contas negras e a palavra muda
.
.
.
para eu me atirar
bastam-me teus olhos

(Celso Mendes) 

sábado, 3 de março de 2012

Nova introdução para reedição de mais uma antiga abstinência e vícios eternos


Sem aviso

chegou sem ruído de abertura
volátil
insinuante

inalei-a

[todo vício começa com uma sensação de prazer]


 
Absintismo  
(reedição modificada)

fluida
escorreu-me lenta
banhou-me de olhares
palavras
desejos

bebi da sua cor
colei o seu cheiro
sorvi sua essência
naveguei cada vão
por onde vertia

e nadava-a
sôfrego
ao perceber
súbito
seu sumo destilar-me pele afora
e vazar
de minhas mãos
ocas
que não mais a continha

rapidamente escoou
secando-me um sonho
eternamente fugaz

daqui
em minha embriaguez
ainda absinto-a
intensa
inebriante
fluida

(Celso Mendes)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Alfarrábios (repostagem)

percebo uma ruptura que me duplica.

mas sou feito de ferro e concreto,
fissuras não me comovem.
já sou azul e amarelo,
preto no branco,
e uma velha testemunha do conformismo.

o sopro que fere meu rosto
é a prova da fragilidade desta armadura.

redimo-me da canção subalterna a um desejo ocre.

e que não me faltem alfarrábios
para dizer da crueldade dos anjos,
que infernizam minhas noites
e visitam-me nas manhãs opacas
pintando-as de tons pastel,
feito palhas que incendeiam sutilezas
e espalham a fumaça:
ardência dessa angústia nos meus olhos,

asas que se queimam em pleno voo
sobre um chão que já não há.

(Celso Mendes)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Acalanto para abstinências e vazios

                                         é a falta e a lacuna quem cria
                                                                      (Paul Valéry)
é para agasalhar ausências que teço este poema
fantasmas não dormem
anseios me esperam

o que urge além do lábio e da palavra
é o mesmo que me trinca o esmalte dos dentes
vindo da lacuna que ocorre no rastro do voo
de cada pássaro que ousei ser
neste não sentir talhado nos ossos
feito rios secos a riscar-me a pele
álveos calcinados 
onde escorrem congeladas 
a doçura e a tortura
de vozes e olhares idos ou perseguidos
dentro de um pretérito que me bate à cara
ou em um porvir que se me escancara

é para agasalhar ausências que teço este poema
de vazios e de abstinências
e me permito à lagrima
tanto quanto ao riso

(Celso Mendes)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Cantiga de poucos verbos para tanto amanhã

vou
talvez volte amanhã
mas não me esperes

se os dias voltarem
volto amanhã
quiçá depois de amanhã

mas não me esperes

há uma esquina em cada lua
um novo estio em cada dobra da retina
há um horizonte de amanhãs a me secar

hoje só parto
amanhã não sei
talvez eu volte
não me esperes
– não precisa –

só não me esqueças amanhã de manhã
pois bem não sei
se tornarei
se eu haverei
amanhã
de manhã
ou depois

e se amanhã houver
lembra-te de alguma palavra minha
se no amanhã
eu não estiver

e voltarei

(Celso Mendes)