segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um quase inverno


o outono só esquenta as vísceras enquanto dorme
só avia pecados em segredo e silêncio
enquanto ora, dissimulado, às folhas secas em escalpo de rosa
pelo espinho que murcha, mas ainda fere

o outono só aquece em olhos úmidos
seca-lhes paisagens sem lhes roubar a vida
como a impor a dor na sombra de uma translação
onde o frio flui impiedoso e ocre sobre cabeças e pés
inabaláveis ou frágeis

o outono só é quente em minha mente insana
que insisto balançar a um sol detrás de um muro
e tranco junto a sonhos findos e repaginados
quase adormecidos, imobilizados
pedaços de um passado a me planar impunes
prensados pássaros sem céu
sementes pálidas sem broto
luz que se aprisiona a espera do inverno tão próximo

não, meu outono não é quente, ele mente.

(Celso Mendes)

26 comentários:

Lara Amaral disse...

Fez-me pensar no que cada estação esconde enquanto hiberna.

Muito bom, Celso.

Beijo.

Marcantonio disse...

Não, as estações não passam por nós, nós é que passamos por elas, as acelerando, alongando ou mesmo as suspendendo.

Há imagens belas nesse poema, a começar da surpreendente "escalpo de rosa".

Grande abraço.

PS. Obrigado, Celso, pelo comentário deixado lá no Roxo-violeta. Mesmo que eu não reconheça esse "genial", é bom sentir que o que escrevemos reverbera no outro, que encontra interlocução.

Batom e poesias disse...

Penso que o outono e mesmo a mais dissimulada das estações...
Eu achei belíssimo esse poema, Celso.

bjs
Rossana

OceanoAzul.Sonhos disse...

Descansei nesta musica...lindíssima...
O outono, nostalgico, nos traz memórias, nos aquece sem calor, apenas por lembrar...
Adorei, simplesmente.
Um beijo
oa.s

Luiza Maciel Nogueira disse...

o outono mente! fantástico!

beijos

Sandrio cândido. disse...

Este poema machuca, doi
abraços

Eriem Ferrara disse...

Viajei por entre as estaçoes e percebi que todas nos mentem um pouquinho, mas cada uma nos dá algo de bom... a esperança para tentar romper os laços de um passado nao muito feliz. Parabéns Celso, seu poema é divino!!!

Milene R. F. S. disse...

E assim cada estação trás a sua alegria e a sua dor... belo, beijos!

Suzana Martins disse...

O outono, minha segunda pele, esquenta dentro de mim exibindo seus ventos. O outono, minha outra metade, inventa versos num temporal de saudades. O outono, parte de mim, acalenta o revoar dos poemas de um trovador que chora em nostalgia!!!

Beijos querido!!^^

Inspiraturas - escrita criativa disse...

Decerto tu rompes as significâncias triviais... e encantas sempre. Grande abraço, amigo.

sacharuk

Celso Mendes disse...

obrigado, gente, pelo carinho...

gostaria de fazer um comentário: como médico, é muito corriqueiro, para mim, usar o verbo "aviar", colocado no texto, que NÃO se refere ao verbo haver usado sem o "H". Achei pertinente essa observação, sem menosprezar nenhum leitor, é claro.

Abraços a todos.

Lídia Borges disse...

Celso, o seu Outono é deslumbrante.

"o outono só aquece em olhos úmidos
seca-lhes paisagens sem lhes roubar a vida!

Posso levar estes versos na alma?

Um beijo

Natalia Campos disse...

Cada estação deixa sua sensação
Neste mundo não muito são
O outono seca as folhas, mas as palavras não
Elas no meu coração estão!

Muito belo, Celso!
Beijos. Au revoir.

Elisabete Lira disse...

Seu blog é muito interessante...
Estou te seguindo.... Tenha um Lindo Dia!
Siga meus Blogs: http://cartasdeumcoracao.blogspot.com/
E http://deusemminhaalma.blogspot.com/

Lou Vilela disse...

Gostei do espaço, Celso! Voltarei para conhecer melhor o teu trabalho. ;)

Obrigada pela visita e pelo gentil comentário, poeta!

Um abraço,
Lou

Milene R. F. S. disse...

Celso, indiquei o seu blog para o "selo do blog de ouro" lá no melodia em versos. Se sinta à vontade para pegar o selo na página (nova) selos e agrados. Beijos!

Parole disse...

O outono pode ser quente, morno ou frio, dependendo de quem olha.

Sublime, Celso.

Beijos

Michelle Crístal disse...

Achei você no perfil do Jorge...
"meu outono é quente e por isso mente" , fui tomada por essa frase...

Me disse...

gosto de outonos...
bjo Celso!

Carla Fernanda disse...

Bom dia!
Passando para uma visita!
Saudações,
Carla

« Katyuscia Carvalho » disse...

Uma estação inteira pousada na folha do poema, sentida na epiderme dos versos, sensações voláteis; e a dualidade do vocábulo "mente" articulado genial-mente!

Celêdian Assis disse...

Celso, seu poema é de uma beleza rara, na riqueza da metáfora que construiu sobre a dissimulação do outono, que avia substratos para a vida em solo com "escalpos de rosas" e o outono do homem que se alimenta dos sonhos despencados de uma alma ressequida e ainda assim aviando esperanças para a sua vida.
Muito lindo!
Um abraço,
Celêdian

Jorge Pimenta disse...

amigo celso,
quantos outonos não vivemos nós numa só vida? mesmo sabendo-o, o calendário mente, assinando apenas um por ano. e o homem ainda à espera da revolução da meteorologia...
um forte abraço!

Prosas e Versos - AndreaCristina Lopes disse...

Az vezes precisamos de um abrigo mais quente para que o frio passe. É como quando éramos crianças e o medo fazia com que nos cobríssemos até a cabeça, depois de crescidos isso já não dá certo. Saudade dos outonos de outrora.

Beijo grande amigo Celso. Ótima semana!

Deah!

Ana Morais disse...

Voltei e descansei aqui, que lindeza, meu poeta.

Dolce Vita disse...

Quanta vida se oculta no outono.

Só a poesia é capaz de alcançar tamanha beleza...

Beijos