domingo, 6 de fevereiro de 2011

O vento, a pedra e o rio


           Agora sopro estava tão tênue que nem mais lhe corava a face. Rasante. Era areia e chão. Amainara a abrasão da ventania. Em vez de voo, passos lentos. Sentiu que o outono passara e o inverno era findo. Setembros continuariam derretidos, mas não mais queimavam em suas mãos. Era estranha a sensação da calmaria. Os cortes cicatrizando. Aquela fotografia insistia ficar, mas já pouco lhe dizia. Não provocava mais tanta ansiedade ou sede; não insistia calar respostas, pois não mais escutava perguntas. E as perguntas, quase esgotadas, acomodavam-se entre a língua e os dedos, em silêncio. E foi nesse contexto que as rugas finalmente conseguiram aparecer, calmas. O olhar inquieto de outrora tentava sorrir, na desejada serenidade. O caminho ainda era longo. Ele sabia dos novos invernos e do frio. E que o fogo é essencial. Sabia da solidão e já frequentara o vazio. Não se iludia. Seguia, apenas seguia.

CELSO MENDES

4 comentários:

Lídia Borges disse...

Há nesta prosa poética muito daquilo com o que me identifico. Gostaria de ter sido eu a escrevê-lo.
Essa serenidade que supostamente deveria estar, mas não está, a solidão e o vazio e como súmula - "seguia, apenas seguia."

Lindo!

Um beijo

Celso Mendes disse...

Obrigado, Lídia. Teu comentário, de quem conseguiu sentir o texto, é muito gratificante para mim.

Beijo.

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, Celso.

Que texto-poético maravilhoso!

Senti cada palavra batendo calmamente na alma e depois seguindo... seguindo.

Beijos, querido. :)

Celso Mendes disse...

Obrigado, Patrícia!

Beijo.