quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Balada para musa desaparecida em noite paranoica


não há paixão que sobreviva nesta calçada
onde teus pés de salto agulha feriram o concreto
e poças de lama preenchem os buracos
que escondem o sangue jorrado
dos últimos colibris de asfalto

não há mais passos em frente desta janela de bar
que não lembrem teu hálito de espuma
vazando pela veneziana
como serpente
a procura de pupilas escancaradas

não há mais amor nesta alameda em desatino
destino de alucinações desencarnadas
que não sopre o reflexo apagado de pirilampos
que já foram olhos

já não há mais a saliva espargida do teu canto
a deixar o brilho de teu rastro estéril
à porta destas casas
já acostumadas a hábitos cetônicos
hepatotóxicos
agora órfãs
de tua corrosiva doçura
etílica

nem há mais lua nesta rua
onde pisaste
e agora jazem as estrelas

ao fundo
opaco mundo
e apenas blues

(Celso Mendes)

28 comentários:

Menina no Sotão disse...

Será que a desilusão pode tanto assim mesmo? Acabar com tudo, com todas as cores, as sensações? Penso eu que não... Acho que há algo que sobreviva ainda que precise respirar fundo muitas e muitas vezes, pensar ter morrido. Acho que é possível sim abrir o peito, rasgar a pele e descobrir algo de intenso e vivido lá fora. rs

bacio

Luna Sanchez disse...

Sempre acho que salto agulha tem algo de crueldade, juro.

Um beijo.

Milene R. F. S. disse...

Quanta desilusão canta em seus versos Celso... a ausência da amada parece ter deixado o mundo vazio em seu poema... muito bom, belo demais! Beijos.

Luiza Maciel Nogueira disse...

esse poema de rara beleza consegue ser triste e alegre, romântico e musica :) Esses amores "corrosivos" não foram feitos para entender, só sentir.

beijos

manuela barroso disse...

Fica uma doçura ainda que corrosiva, numa lua invisível mas que sempre existe!
...e a saudade ficará enfeitada de estrelas preenhendo os buracos da rua...porque nos da alma fica a recordação!
Bjis!

Tania regina Contreiras disse...

Celso, nossa....gostei muito do poema, e cá pensando que a paixão resiste e persiste quando caminha até o poema. Parabéns...
Beijos,

Ana Cecilia Romeu disse...

A musa desaparecida, feita de trilhas. O poeta a tentar preenchê-las em vão, em uma perseguição amorfa pelas ruas e alamedas, agora remotas.

Celso, maravilhoso poema!
A amplitude de significados e figuras de linguagem é imensa.
Muito bom ter vindo por aqui!

Grande abraço.
Cecília.

Suzana Martins disse...

Não há mais versos que escorram dos teus lábios ferindo a alma. Não há mais palavras que possam ser ditas num luar de estradas. Não há mais estradas, não há mais caminhos que entregue amores.... Não há mais candura...

Lindo querido...

Beijos

Sandrio cândido. disse...

Profundo. Sinto esta dor, desatinada em versos tão bons.
abraços

Cris de Souza disse...

um blues tocado por você representa uma orquestra inteira.

beijos, encantador de sentidos!

Celso Mendes disse...

Lu, acho que é só o espírito de um blues que tem aí. Um tanto de teatralidade e dramaticidade pra se cantar, como os cruéis saltos de agulha, não é Luna Sanches? rs

obrigado, meninas!

Daniela Delias disse...

Olha os pirilampos aqui também!!! Que lindo, Celso...no espírito de um belo blues...
Bjo!

OceanoAzul.Sonhos disse...

Ao som de um blues tudo é inspiração, tudo é permitido ser escrito.
Celso, poema intenso.

Beijos
oa.s

Assis Freitas disse...

essas musas nos deixam os versos atônitos,

abraço

Ricardo Mainieri disse...

Celso, este teu poema é uma balada em 4/4 para um anjo decaído.
Seja real ou imaginário, quem não teve o coração despedaçado por um loucamor que se foi?
Belo & triste, lúcido & louco, versos que tocam fundo, como uma navalha.

Abração.

Ricardo Mainieri

Wania disse...

Celso


Grita o amor, um refrão repetitivo, como um solo de guitarra no coração vazio! Talvez só um blues sobreviva nestas calçadas feridas que já foram olhos de tudo...


Lindo, muito lindo!
Bj

Batom e poesias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Batom e poesias disse...

Apesar dos seus versos livres, esse poema tem uma certa crueza e crueldade que me remete à Augusto dos Anjos.

Sinistramente triste...
E lindo.

Bjs, meu amigo.
Rossana

Dolce Vita disse...

Os sentidos dessas imagens poéticas parecem refletir nuances de uma "densa cenografia de alma".

Em outras palavras, viajei nesse poema...

Beijos

Weslley M. Almeida disse...

"o reflexo apagado de pirilampos
que já foram olhos". Que lindo isso aqui, cara.
"nem há mais lua nesta rua
onde pisaste
e agora jazem as estrelas" Poesia...! É pra fruir sem término.
O final, fantástico!
Celso, eu que te aplaudo!
Abração, poeta!

Zélia Guardiano disse...

Versos maravilhosos, meu querido Celso!
O calor intenso que permitiu fosse o asfalto perfurado pelo salto agulha, aqueceu-me o espírito.
Sentimentos densos, disfarçados de flores de caliandra...
Abraço, amigo, grande poeta!

Elisa T. Campos disse...

Versos de abandono resgatados com tantos versos de pura beleza.

Um abraço

Tiago do Valle disse...

Quanto mais eu me identifico com um texto, maior é o grau de dificuldade em comentá-lo rs... As suas palavras são selvagens, e o seu olhar é sensível o suficiente para domá-las. Tem a densidade que me faz gostar de poesia.

Lídia Borges disse...

É uma luminusidade fosca, uma noite cansada a arrastar a alma num blue monocórdico e incolor.

Um beijo

Jenny Paulla disse...

Blues with the waves.
Anestesiada selvagemente pela lascívia implícita,qualquer vã desejaria andar tocando profundamente com arame farpado. Impossível não ser envolvida e desejar ter tal poder de sedução.A desilusão é um teatro passageiro quando é apenas uma justificativa pro fracasso.Mas quando a desilusão é tão avassaladora,vale a pena chafurdar na lama até desaparecer em meio ao caos.
Beijos!!!!!

Jorge Pimenta disse...

caro amigo,
os homens são todos os lugares. agora, que uns e outros mudam, lá isso mudam...

abraço!

p.s. o teu poema levou-me até cassiano ricardo, no seu tão imenso
"rua torta
lua morta
tua porta"

Lua Nova disse...

Duvido que alguém leia esse poema e não se identifique com ele... e quem não se identificar, um dia se identificará. A música que vc escolheu é perfeita... reforça a palavra, o sentido. O conjunto é dramático como é dramático o fim de todo amor. Sombrio como é sombria toda saudade.
Eu adorei.
Beijokas.

Luna Sanchez disse...

É sim, não tenho dúvidas.

;)