sábado, 20 de março de 2010

Estou bem, obrigado.


Não sei se ando em cometas
ou num rabo de foguete.
Estou de bem com as paredes
e na janela há uma fresta.

Esta bolha de gel onde flutuo
lentifica-me,
turva-me a visão,
abafa-me a voz.

Existem flores do outro lado da rua,

o desassossego é só minha doença.

O ar está calmo,
o céu azul,
pessoas riem.

Dezenove incursões respiratórias
caladas
ouvindo os setenta batimentos cardíacos
tentarem parar o tempo,
enquanto meus cinco litros e meio de sangue
insistem circular
duas vezes por minuto por todo meu corpo
para oxigenar este cérebro,
que gera
um pensamento por hora
e se repete ciclicamente,
provam que estou vivo.

E as flores continuam do outro lado da rua,
vejo pela fresta da janela.

(Celso Mendes)

7 comentários:

FlavCast disse...

Parabens pelo belo poema Celso. Abraço.

« Katyuscia Carvalho » disse...

Do lado de fora do poema, vejo flores contemplando a composição dos pensamentos...
Para isso que elas respiram.

(E ao poeta, as melhores inspirações, sempre!)

Abraços.

Daniela Delias disse...

Celso! Obrigada pelo gentil comentário lá no blog...passei aqui antes e também fiquei. Teu espaço é muito lindo, virei sempre. Um beijão!

Colecionadora de Silêncios disse...

Oi, Celso.

Vi agora, por entre a fresta da minha janela, que a sua sensibilidade de poeta tocou de leve na sua visão de médico e ambas se curzaram lindamente em versos maravilhosos. :)

Amei! Saio daqui com os batimentos cardíacos aceleradíssimos de emoção. :)

Beijos, querido.

Lara Amaral disse...

Um surto na calmaria da vista da janela; poesia é observação e vertigem.

Adorei!

Grande beijo!

Sueli de Moraes disse...

O desassossego é a medida certa...é também por ele que p artista ensaia um passo, um risco, uma escrita...
beijo cardíaco, então, ao seu desassossego!

Maria G. disse...

O poeta é mesmo um "escutador". Saber ouvir a palavra transfigurada que dará o poema...

Muito bonito!