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domingo, 11 de maio de 2014

O TIRO


uma linha solitária
entre tantas paralelas

alvos em série

viro
não miro
atinjo um ponto

chuvisco cinzento
veludo cotelê
brisa gelada
calor de mãe

era um ponto distante

(Celso Mendes)

uma lembrança, uma eu criança, uma minha mãe

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fugaz


do pensar
ao dizer
um momento
que hesita
existir
num olhar que agoniza

o tempo engole palavras

a  saliva que seca
murcha a frase
que fica
a vontade que míngua
o gosto
acre
grudado na língua

(Celso Mendes)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Algia Temporal


De tanto pensar
em círculos,
voltando pro mesmo ponto,
meus neurônios
fasciculam,
como o tremer descontrolado
de minhas pálpebras
latejando minha lucidez,
como um coração que fibrila
estagnando o sangue
nas veias,
como o bater impaciente
de meus pés
esperando
o não sei que.

Cada minuto
atravessa-me
do lobo frontal
ao hipotálamo,
perpassando a região temporal,
e dói.

Mas não lamento a dor já sentida.
Queria apenas soltar as amarras,
desvencilhar-me desta imobilidade,
para que os minutos futuros
não fossem tão iguais...

preciso desfibrilar esta algia temporal

(Celso Mendes)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Cinco Sentidos e uma Sombra

escutar
a pele
implorar
o toque do segredo

ver
o vazio
de um olhar
preencher de aromas o sonho

sentir
a cor proibida
do prazer
escorrer da própria mão

inalar
o gosto
de um sugar de línguas
emudecendo olhos

degustar
palavras
remidas
de falsas mentiras

e perceber
resignado
que os passos
silenciosos
do desejo
só andam ao lado

um desejo resumido a uma sombra

CELSO MENDES

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Urso Polar



Sou tão somente o que queira que eu seja

Um inimigo se suas setas não me alcançarem
Esses destroços do que os canhões não atingiram
Um companheiro se sua adaga me ferir
A lua nova dos que já não precisam luz
E este inferno onde o escuro brinca de pirilampo

O que quiser, eu sou

Uma montanha se quiser me atravessar
Um precipício se este azul escurecer
Um oceano se todas as nuvens queimarem
E o dono deste segredo que sempre me acompanhou

Sou o fantasma que quer roubar os seus sonhos
Sou um gigante rastejando pela bruma
Um transeunte perdido em vôos solares
Aquela árvore que repudia raízes
Aquele rio que leva todas as folhas

Mas se quiser, eu posso ser
Apenas um monte de lã branca

Se sua aura não me der esse calor
Sua saliva não matar a minha sede
E sua lágrima não for

Minha
         Água
                Gelada
                         Onde nado
                                    A alimentar-me

(Celso Mendes)

sexta-feira, 18 de março de 2011

A cor do remédio


Hoje amanheci chovendo.

E a mesma garoa fina, que me acinzenta os ossos,
também descolore minhas retinas
e escurece-me a voz úmida,
que nem é mais rouca
posto emudece,
solitária.

Minha angústia se cerca de pessoas em preto e branco.

Mas, no corredor sombrio
dos que esperam por socorro,
um sorriso de cabelos vermelhos
salva minha vida.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Fumaça


arrasto comigo uma sede
de cenas que não vivi
de barcos que já partiram
de peles que não senti
arrasto uma linha pendendo
pras bandas do fim do mundo
que escorre a cada segundo
nas brechas por onde adentro
e levo dois milhões de olhares
mil bocas que não beijei
imagens que guardo lá dentro
e um rastro que não deixei

(Celso Mendes)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Pele


Às vezes
meu mundo se resume a pele clara e arranhada,
sorrisos doces
e tons de escarlate.

É lá que me perco
e de onde não sei sair.

É onde costumo mergulhar.

(Celso Mendes)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Extrassistolia


não te mirei nos olhos
não retribui tua doçura
não te acusei
pela extrassistolia
que me causas
ao te (pres)sentir

foi em vão:
insistes lancetar meu coração
onde te alojas
e sangra sem culpados
no descompasso
da minha incontrolada emoção

(Celso Mendes)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Sentidos e Direções


Uma conversa com o oceano
e a frase-fase de ondas enganando o tempo.

Um verso sujo de limão doce,
uma procura por pitangas
e a leitura triste da lua,
que sabe ser finda.

O não ficar pra sentir
saudade.

Percepções não se compram em roseirais:
jardins ofendem a tristeza
como espinhos de olhos que ferem.

Cegueira de sentidos se palpa com pele queimada.
Camadas de vida se amontoam sob meus dias
e meus pés já não são mais alados.

A contra-mão é a direção, devia vir comigo.
Não quero mais subir montanhas onde o ar é azul
mas, rarefeito, pode dar falta de luz.

Vou voltar três léguas e meia;
a solução se escreve com lápis de cor.
Agora é esperar meu cavalo chegar
e parto.

(Celso Mendes)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ensaio para um voo cego


Estanca esta minha reza antes que eu confesse
meus dissimulados tempos de angústia incrustada,
forjada secretamente com palavras mudas entre risos breves,
olhares distantes e meias verdades.

O amargo que exalo da língua é a minha defesa
e a lança que aponto em teu peito me fere na alma.

Não deixa que eu diga o que sinto,
que eu sinta o que penso,
que eu pense que sei já saber ser vodu de mim mesmo.

Pois hoje eu queria fazer um poema cortante,
que sangre, que vaze dos olhos, que verta o veneno.
Por isso preparo um altar para o sacrifício:
que o doce lirismo se queime na verve maldita
e o olho dos ventos me arranque essa pele de santo.

Devolva-me cada delírio e meus sonhos alados,
vomita esses meus pedaços que já mastigaste,
retira de minhas entranhas as tuas matizes

e impeça este meu ensaio de um vôo ao inferno.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um cruzamento


frio
noite
passos pesam
passado

memórias
a trazer
teu rosto
que insiste existir

chuva
semiluz
vento

no cruzamento
faróis rasgando pingos oblíquos
denunciam meu olhar
marejado

sombras
vagueiam
disfarçadas de gente

comigo
só lembranças

solidão
dobrando esquina
devagar

da alma
deixo um pedaço

o que as retinas fixaram na mente

levo

(Celso Mendes)

sábado, 12 de junho de 2010

Combustível


Quando a seta partiu
seu zunir abafou o grito,
que lacrado engoli.

Mas a pele viu o limbo
que tua face oferecia,
sub-reptícia,
com olhos de auscultar o meu vermelho
em seu pulsar
frenético.

Profundos são os passos
que me livram das imagens
previsíveis
de minha sanidade,
enquanto tuas centelhas
penetram-me os poros.

Não cedo à realidade que me fustiga,
não me dissecam os ventos longínquos da razão;
permito-me a embriaguez controlada por desejos
e me deixo invadir.

(Celso Mendes)

domingo, 2 de maio de 2010

Invasiva

lento, hoje estou lento
como a saudade que me toma devagar
preguiçosa
vestida de um vermelho que me inunda
preenche-me de olhares
de sorrisos nus
de pele macia
e de uma falta danada desse seu abraço

(Celso Mendes)

sábado, 10 de abril de 2010

Sobre raízes e uma luz


Pessoas sem face se repetem
em casas sem cores
e ruas sem caminhos
onde procuro esperança
numa saída secreta.

E sempre a velha sensação
de que o vento tenta me engolir
e a mesma fenda insiste em se abrir sob meus pés.

Alço voo,
mas aqueles dias,
que já não mais existem,
sugam-me.

Raízes rasgam
paredes
a prender-me as asas
em muros fincados no passado.

Outra vez
meu olhar
mira a estrela,
bela,
que diz me esperar.

Ando perseguindo uma luz que não me cabe;
ela pertence aos meus sonhos.

(Celso Mendes)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Reta Final

Por estas ruas
onde gruas
levantam penas
pesando centenas
de desejos
tenho perambulado.

Deste gelo que me queima,
deste fogo que me corta,
eu conheço bem.

Desta bruma que me despe,
deste sopro que me aquece,
conheço também.

Há muito
o tempo bate-me na cara
e muitos rios correm-me nas veias.

E continuo.

Na pele levo o amargo e guardo o doce,
o cheiro e as cicatrizes são memórias,
meus olhos têm o gosto da procura
e escuto aquelas folhas que se quedam
a espera do outono.

Pertenço à velha estirpe dos fadados
a deflorar a vida pelo acaso.
E dos passos encantados que voei
até o final do que já foi magia,
perdi a conta...

Agora só caminho sobre fio de lâmina quente.


(Celso Mendes)

terça-feira, 30 de março de 2010

O gosto do vácuo


um momento
transverso
percorre-me a espinha

sinto os passos
marcados
ritmados
dissipando-se
num ir sem olhos de guardar lembranças

agora o vácuo

o limiar da dor
vagueia
perigosamente
na fronteira da minha sanidade

percorro um trajeto sem chão
e me despejo na saudade

(Celso Mendes)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Presque vu


no momento em que a mente exige
essa busca do olhar
que se perde em paredes
ou se afunda na madeira da mesa
transfixa matérias
e se esvai entre imagens e sons
ao tempo exato
em que passos morrem na sua nascente
percorrem meu abismo mais frio
e pisam, descalços, nos mesmos cacos de sempre
sangrando-me os pés
é nesse instante que o movimento inexiste
que desejo do teto meu chão
que arranco minhas asas
e as devolvo ao demônio

(Celso Mendes)

sábado, 27 de março de 2010

Passeio


PASSEIO


Hoje visitei a beira do abismo
Eu e meu jeans

No fundo, sempre achamos que o tempo não iria passar

Acocorei-me sobre o limbo que cobria o chão que pisava
Abotoei uma borboleta amarela na lapela
Cobri-me daquele sol desbotado e velho
Apanhei um cogumelo solitário que insistia em crescer na pedra
Cheirei duas nuvens passageiras
Mas resolvi não olhar para o espelho do mar

E o azul acima da minha cabeça sempre me desafiando

Resolvi seguir pra lá

Estou cansado de tentarem me convencer que envelheço


(Celso Mendes)

Sobre esperas e compulsões










Mais um vez
mergulho.
O fundo é cego
e seu ruído surdo
martela
cada instante de ausência.
E cada palavra não dita
ecoa
numa mudez que fere.

Sístoles e diástoles
preenchem
o silêncio
da noite.

(Celso Mendes)