quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Criação


no princípio é o silêncio.
do vazio ao voo
habitar o vento
onde o grão é luz
e a palavra é gérmen.

ver o verbo romper a membrana
e sangrar.

(Celso Mendes)

sábado, 6 de setembro de 2014

O último verso


de migalhas de sonhos quase esquecidos
em noites infinitas,
de milhares de paredes que risquei
com centelhas de anos-luz,
de luzes que plantei,  de escuros que aprendi,
de sinais
e de sintomas
faço um novo dia
sob o mesmo sol
que já nem brilha como antes
mas continua a me esperar.
[até o último verso]

Celso Mendes

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Autofocus
pequeno retrato amador de um dia de inverno  sul-americano


amanheço.
há uma réstia de noite
e o gosto de agosto a me soprar o rosto
a verter da janela.
pilhas de lembranças sobre o colchão
ainda dormem
esquecidas
gota a gota.

na boca o doce e o ácido,
na pele o tempo.

os fios piam seus pássaros
como de praxe.
postes descansam, esquinas acendem.

então converso com o vento. sinto.
hoje soprou-me frio, mas não calado.
pouco  sei do lume que me corta
ou da aridez das palavras segredadas,
mas sei daquilo que exala o vento
e de seu rastro solitário de silêncio.

entardeço sol adentro.

(Celso Mendes)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Precisão


é preciso o toque
e o que navego são teus rios
vãos
tuas águas turvas e tua pureza mais crua

é preciso o olhar
a atingir toda minha profundeza
na superfície mais leve
da luz

é preciso o som
teu canto e minha música
um sopro
certeiro
esta voz que me preenche

é preciso este amor
que arde, urge, cala
letal
impreciso
final

(Celso Mendes)

sábado, 21 de junho de 2014

Latências

porque há silêncios que criam, silêncios que destroem e aqueles que apenas aguardam

bem sinto o bater das palavras

— querem sair —

este silêncio infla um vazio quase inexpugnável
que corrói-me dentes
e língua
engaveta-me a alma
e meus verbos
desatina meus rubros

mas a poesia persiste
subsiste calada
latente
a latejar cada pulsar

(Celso Mendes)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cicatrizes


Parte 1

ele tinha marcas de chumbo em olhos nus de silêncio. pairava seu torpor em nuvens sulfurosas de lembranças a lhe dissecar a mente. pedia alívio em colchetes e parênteses de papoula e beladona. insistia viver, mas doía. queria descanso, paz, queria vazios (e aquele pedaço perdido do universo-solidão). o ruído era sangue. ecoavam-lhe hemorragias. não percebia a eternidade que transfixa tímpanos, a imortalidade de cada toque. a luz era tanta que lhe queimava a lucidez. só lhe faltava compreender que cada janela aberta às pupilas é infinita. e aprender a deixar que a leveza reja o entender. ao acordar talvez conheça o porquê de um novo dia.       

Parte 2

e então passou a ficar. apenas ficava, não tinha mais pressa. sorvia tudo plenamente, irremediavelmente. bem tentava não calcular o risco, mas já tinha algumas contas decoradas que o impregnavam: não importava. acedia ao escuro e celebrava a luz. foi assim. as perguntas precisavam-se suaves e respostas não foram mais necessárias, bastava sonhá-las. 
um dia percebera que a dor é real mas a felicidade imaginária, a mente a construía. depois acabou por perceber que tudo é sonho. que a realidade é matéria, mas não somos matéria, somos energia, e só. e que o destino é o agora. porque é sempre agora que chega a partida. o novo não espera, acontece. e essa luz… ainda não entendeu. seria preciso?