sábado, 9 de maio de 2015

A Sinapse

é no silêncio que ocorre a palavra
fecunda-se o poema
cresce a substância primária da língua
a condição incorruptível do talvez
e a geometria do vazio se arremete
ante a luz

é ainda no escuro que descansa a imagem
que repousa o verbo
que se abranda o inferno
e que todos os cacos de ternura confluem
em um só oceano
de relâmpagos

e é na sinapse que a faísca insiste
e no princípio é que germina o fim

(Celso Mendes)

sábado, 2 de maio de 2015

Brevidades de silêncio e luz


Sobre ser


o que fui morreu
mas habito em teus olhos
perene

somos fotografias e te povoo
e eu serei apenas o que morrerei

mas sei
: ainda serei

e aguardo em teus olhos

[vem!]

(Celso Mendes)


Sobre não ser


contamino a pureza natural dos instintos
esta noite toda escuridão há de me abraçar
e só o silêncio será música


(Celso Mendes)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Alguns segredos


eu tinha em minhas mãos o segredo do rio
plúvio
agia com a mais bela insensatez da palavra desregrada
filtrava tua areia em teia de seda
alimentava silêncios
e descomedia paixões

o segregar da luz compunha-me horizontes
de tintas e conteúdos inomináveis
únicos
que entendiam minhas polpas digitais
mas, mágicos, perfilavam-se inutilmente
ante os olhos esbugalhados
de luas
e sóis

não mais te cantei por força
desta mudez inexorável que me aflora
óssea
medular
rude
[e tacitamente tátil]

embrenhei-me nos mesmos versos pífios
que me refletiam
além do mar
além de mim
além do além
aqui
aqui


e a sós
me concebi
um poema
um poema meu
e de mais ninguém

(Celso Mendes)

sábado, 8 de novembro de 2014

Pseudopoema branco para musas do fogo


como hei de fazer um poema
se não me escarram palavras
com sangue para cuspir
se não há fogo em minha glote
ou frio no plexo celíaco
se a estrada estaciona calma em minha porta
sem placas ou avisos
e se não sei o trecho onde encontrar meus rubros?

delicadezas não me compõem
[palavras azuis ou rosas são para delicados, não quero confessá-las aqui]

então
diga-me
que devo fazer se
neste momento
em minhas mãos
tenho apenas um ramalhete de versos  brancos
e frágeis
para te ofertar?

#celsomendes

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Prosaico


o brilho seco, o sol a pino.  tentou bebê-lo, mas engasgou. agora saciava-se de sombra. agora só lembranças caleidoscópicas. então ele abocanhava pedacinhos. cuidadosamente, grão a grão. não, não era areia de castelo, eram outros secretos tesouros. e os olhos secavam lentamente; agora eram lágrimas de sílica em borras de grafite. agora água era o que dela ficara, da saliva dos lábios, da umidade íntima, do suor dos membros entrelaçados, dela, sim, dela toda. era o que bebia. abriu os olhos devagar, olhou a velha janela e algum mundo lá fora, mirou a pele enrugada e ponteada de melanina de seus braços. que tem aqui para mim? — pensou — e cerrou as pálpebras novamente, rumo ao mundo que enfim adotara. na boca um sorriso raso, quase imperceptível; na mente um infinito pretérito a se renovar continuamente.

Celso Mendes

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Criação


no princípio é o silêncio.
do vazio ao voo
habitar o vento
onde o grão é luz
e a palavra é gérmen.

ver o verbo romper a membrana
e sangrar.

(Celso Mendes)

sábado, 6 de setembro de 2014

O último verso


de migalhas de sonhos quase esquecidos
em noites infinitas,
de milhares de paredes que risquei
com centelhas de anos-luz,
de luzes que plantei,  de escuros que aprendi,
de sinais
e de sintomas
faço um novo dia
sob o mesmo sol
que já nem brilha como antes
mas continua a me esperar.
[até o último verso]

Celso Mendes