quarta-feira, 19 de março de 2014

Tocaia


a eletricidade
tece teias
em minha pele
que não é mais seda
mas tem sede
e leva, lívida
o denso odor
de todo um mundo
que me impregna

neste momento não há escolhas
e um só rio me carrega
ao azul oceânico onde me refugio
nestes dias de espera

(Celso Mendes)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Caminhando através da luz


não que eu queira explicar. é como absinto: me cheira a luz. mas sinto. e se esparrama em poças de histórias sob meus pés a cada fração de passado. e a picada da abelha é que leva ao êxtase quando se atraca ao doce do escorpião. não é a luz, é o que ela incita na mente ao captar seu reflexo. não é o som, é seu ritmo a cravar no hipotálamo. não é a lógica, é a desconstrução que me excita e estimula. e nem sei pra que dizer tudo isso aqui — um impulso, e só. mas nada é como já foi e acabo de me reinventar mais uma vez sob a pena de um bico sonhador. (seria atrevimento meu querer caminhar através da luz?).

Celso Mendes

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Divagar, e sempre

(I)

sopram-me segredos oceânicos
[estabeleço uma latitude inatingível para meus sonhos]


(II) 

sobre  palavras que buscam o encanto
que ao vento se vergam
frugais
palavras de trigo
palavras que alimentam almas
debruço-me


(III)

do que foi dito
da lida, do lido
da prece aprendida ao olhar da noite
das confissões à sombra
rasgo fantasmas ao fogo de rochas cadentes
guardo o lume
insemino um novo sol
e prossigo


(IV)

de brisa leve ou de furacão. aprendi que chuva sempre pinga vida. que tempestade renova.
(no movimento perpétuo da matéria, a constatação de que somos mutantes)


(V)

— |acendo estrelas para cada novo sono•às vezes chove•amanhã acendo outra vez•às vezes brilha•acendo•por vezes dói•acendo•sempre vale a pena•um dia sei que apagarei|



(Celso Mendes)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Fugaz


do pensar
ao dizer
um momento
que hesita
existir
num olhar que agoniza

o tempo engole palavras

a  saliva que seca
murcha a frase
que fica
a vontade que míngua
o gosto
acre
grudado na língua

(Celso Mendes)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ser de luz


é vazia de noites
e de silêncios
a casa da luz
que em mim abrigo

vazia de um  endoidecer entardeceres sob carícias perdidas em horizontes
vazia como estes olhos
órfãos de uma película de sombra emprestada ao espanto
em sua eterna embriaguez
vazia como o sol
no aguardo do escuro mistério das palavras que se abortam
que não se criam
que só se sentem

eu reconheço esse escuro
eu reconheço
mas impossível vê-lo
na plenitude de seu nada

e quando o sinto
sísmico
evoca-me lembranças
[novamente a luz]

pele, pele, pele, pele
tanta , tanto
o toque leve
fundo
fundo

quantos segredos partilhados


(Celso Mendes)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Pó do Silêncio


nos cantos
onde a poeira conta histórias
busco explicações

encontro
o silêncio
vertido do grito
do riso
do rito
do choro
da chuva

palavras
perdidas
de olhares
ávidos
escorrem  brechas

das frestas
frases mudas
e desejos
contidos
preenchem
espaços
de vazios

(Celso Mendes)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Espuma



como ser espuma
se antes
areia

e água

como ser mar
se o gosto
é sol

se o rosto
apenas reflexo

eternamente efêmero?

(Celso Mendes)