quinta-feira, 1 de abril de 2010

Trajetórias

Eu ando meio cansado de ventos e tempestades, de angústias e de saudades, de frestas e dos abismos, de dores e de rancores, de chuvas, de vendavais. Eu ando meio alecrim.

Eu ando meio enjoado de sangue jorrado em vão, de feridas, de cicatrizes, de lânguidos corações, de mazelas e chorumelas, de cupidos, de serafins. É que eu ando meio alecrim.

Eu ando já saturado de tragédias e das novelas, de modelos, de passarelas, de choro, riso e consolo, de guerra, de crime e comédia, da fome e de quem consome. Pois ando é meio alecrim.

Eu ando leve, no vento, no intento do firmamento, na face que toco com a mão, no passo que não toca o chão, no espaço e no meu vazio, neste infinito e no azul, neste silêncio, em meu som, nesta magia, em meu tom. Em mim, apenas e enfim, o suave odor de alecrim.

Outono

insisto
numa espera
num destino
desatino
desta mente

insisto
ver a estrela
me sorrindo
se tingindo
de esperança

insisto
no trajeto
que imagino
ser a linha
que me guia

flutuo
neste sonho
meu outono
clama vida
e eu prossigo

(Celso Mendes)

Partícula

persigo uma aura

posso vê-la no voo rasante
contorcendo-se
em espirais multicoloridas

atiro-me

deixo meu flanco vulnerável a sombras
dispostas a me ferir a qualquer momento
eu sei

em queda livre
arrisco
insisto
não meço risco

preciso conseguir antes de o passado chegar

ir atrás
do eterno vermelho que me reflete
no negro dessas pupilas

a viajem dura apenas
enquanto a imagem existir

a vida é camaleão
o escuro quer minha companhia
mas eu pretendo seguir a luz

e vou tentar
enquanto eu puder ser
uma partícula em seus olhos

(Celso Mendes)

Tua Ausência

pingam
lembranças

e esta chuva seca essa minha reza
que não sei rezar

gota a gota
emudeço

inunda-me um cinza
que vaza em meus poros
que escorre nas mãos
amarga-me a boca
priva meus sentidos

e aqui permaneço
neste meu silêncio

neste meu silêncio
só cabem teus olhos

(Celso Mendes)

Reta Final

Por estas ruas
onde gruas
levantam penas
pesando centenas
de desejos
tenho perambulado.

Deste gelo que me queima,
deste fogo que me corta,
eu conheço bem.

Desta bruma que me despe,
deste sopro que me aquece,
conheço também.

Há muito
o tempo bate-me na cara
e muitos rios correm-me nas veias.

E continuo.

Na pele levo o amargo e guardo o doce,
o cheiro e as cicatrizes são memórias,
meus olhos têm o gosto da procura
e escuto aquelas folhas que se quedam
a espera do outono.

Pertenço à velha estirpe dos fadados
a deflorar a vida pelo acaso.
E dos passos encantados que voei
até o final do que já foi magia,
perdi a conta...

Agora só caminho sobre fio de lâmina quente.


(Celso Mendes)

Privação

a palavra unge a ação

hoje meu verbo tinge-se de ausência
ensurdece
ofusca meu foco
cala meus desejos
enquanto esses versos me rompem
rabiscam vazios
renegam-me risos
inventam verdades

hoje
o risco traçado
trai minha vontade

e a mensagem escorre nesta lacuna


(Celso Mendes)

terça-feira, 30 de março de 2010

O gosto do vácuo


um momento
transverso
percorre-me a espinha

sinto os passos
marcados
ritmados
dissipando-se
num ir sem olhos de guardar lembranças

agora o vácuo

o limiar da dor
vagueia
perigosamente
na fronteira da minha sanidade

percorro um trajeto sem chão
e me despejo na saudade

(Celso Mendes)